"Minha
lâmpada de cabeceira está estragada. Não sei o que é, não entendo dessas
coisas. Ela acende e, sem a gente esperar, apaga. Depois acende de novo, para
em seguida tornar a apagar. Me sinto igual a ela: também só acendo de vez em
quando, sem ninguém esperar, sem motivo aparente. Para a lâmpada pode-se chamar
um eletricista. Ele dará um jeito, mexerá nos fios e em breve ela voltará a ser
normal, previsível. Mas e eu? Quem desvendará meu interior para consertar meus
defeitos?"
(Caio Fernando Abreu)
O "pouco" sempre me
preocupou. Pode até parecer pretensioso da minha parte, mas eu não trocaria nenhum
ponto na minha maneira de ver a vida. Eu sempre fui assim, bicho complexo e
cheio de reentrâncias.
Quando falo da palavra
“pouco”, não me refiro aos bens materiais ou façanhas que estão longe do meu
próprio desejo, mas a comportamentos que felizmente não estão em liquidação e apenas
acontecem mediante a minha vontade. Nunca me permiti viver as coisas na
superfície, a passeio.

