sábado, 30 de abril de 2011

do tempo que passa, das coisas que ficam


☊ unattainable

"Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos sim; esquecer-vos
Fora demais, não o fiz.
Tudo se arranca do seio,
- Amor, desejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz."

(Vicente de Carvalho)

Algumas coisas perderam a alegria, perderam sua beleza, seu espaço e desencantaram. Algumas pessoas perderam o lugar privilegiado, perderam o brilho e não conseguem mais produzir. Algumas fotos perderam a cor, perderam significados. Algumas lembranças perderam sua reluzência, perderam valor. Alguns pensamentos perderam a direção, perderam a razão. E por trás dos pensamentos, pessoas.

Eu fiquei sem nexo. Estou deixando de me amar. Lembrei de tanta coisa, uma por uma. Foi como viajar no tempo, só borboleteando entre memórias e sentires e carinhos e distâncias irremediáveis. Não sei mais o que perdi, mas tenho que ficar com os dois pés no chão. Eu tenho um sentimento por algumas pessoas que passaram pela minha vida que nem sei como nomear, talvez seja uma espécie de gratidão.

Preciso acreditar que eu não tenho culpa, mas fins de semana são tão cheios de melancolia, de nostalgia. Agora meu milagrezinho bateu na minha porta. E essas coisas, são poucas, mas tão intensas e de vez em quando bate uma saudade.

Por favor, apague a luz e feche a porta ao sair.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

joga o balde também


☊ hope for the hopeless

"Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia."

(Caio Fernando Abreu)

Dizem que quando estamos mais frágeis é que nos tornamos mais fortes. Nunca acreditei nesses dizeres populares e hoje não me vejo com muitas chances de transformação nessa forma de pensar. E me sinto como alguém que foi esquecido em alguma cidade desabitada, que mora sozinho em uma casa por onde ninguém passa.

Hoje, frente à uma notícia indesejada por uma pessoa, fiz o que sempre costumo fazer pra poder pensar: fui andar. Porque o tempo passa devagar numa varanda vazia. Caminhei sem me preocupar com o tempo, mas não me tranquilizou o bastante. E o que me incomoda é: Será que eu vou ter paz? Será que eu vou conseguir?

E depois voltar pra casa e precisar conviver com mais essa agora. A culpa por ter sido EU e não ELA. A minha cabeça é assim, o que eu posso fazer? Joga o balde também - a água fria não foi bastante.

'Um pouco mais de otimismo', é o que venho escutando. Mas sempre existe um limite, um ponto pra ser mais otimista. Tenho como uma das minhas fraquezas mais detestadas (por mim) o fato de me deixar entristecer tão rápido e tão forte por qualquer besteira que qualquer pessoa me diga ou faça. Eu tento, eu juro que tento. Mas acho que a vida decide me testar demais e eu sempre fui um fracasso nessas provas. E fico triste e desisto de tudo, perco todo o brilho e o orgulho sempre me fortalece. Sempre.

terça-feira, 26 de abril de 2011

calendário


☊ sleep well, my angel

"Esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo sem falar, e eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite (e da vida) que enfim alguém havia me reconhecido: eu era sim uma rosa."

(Clarice Lispector)

- Sento, encosto a cabeça e me esqueço.
- E depois, o que acontece?
- Fico ouvindo o mundo bem longe. Se eu fechar meus olhos lentamente, sei que consigo sentir de novo.
- Onde termina?
- Bem ali. Onde o sol se esconde. Fico aqui pensando em coisas que passaram... Consegue ver?
- Estou vendo. Eu gosto de pensar em coisas práticas. O sol adormece?
- Sim. A noite aquece. E eu tento não me importar muito com as coisas que sinto.
- Jura?
- O quê?
- Que daqui vou ouvir o mundo?

sexta-feira, 22 de abril de 2011

sentir



"Costurou então seu coração com palavras macias, gracejos, carinho na ponta dos dedos do pé, beijos na nuca, mãos que circundavam a cintura, com as canções mais bonitas, meias listradas. O seu coração então encheu-se de cor... e ela não quis mais chorar."

(Natália Anson Lima)

A gente sempre pensa que está melhor do que realmente está ou que algumas coisas já foram deixadas pra trás e não voltam ou que não vai sofrer por certas coisas que escolhe deixar de lado. E muitas vezes a gente leva essa rasteira da vida, é como se alguma coisa viesse nos alertar que não temos as rédeas da nossa vida em nossas mãos como imaginamos, existe alguma coisa mais forte no comando pra nos alertar que somos insolentes e egoístas a maior parte do tempo e que ainda falta muito a aprender, mesmo quando você tem conhecimento que não conhece mesmo muita coisa. Para que a escuridão do futuro não tenha importância, pois já tivemos tudo que poderíamos querer e querer mais é apenas ganância. É fato, as lições sempre chegam, uma hora ou outra, de um jeito ou de outro, sempre em ocasiões inesperadas, não vou dizer inconvenientes. Viva a saudade, o amor e a dor. Doer nunca é legal, não é? O pior é quando a dor não é alguma coisa grave, nem é um poderoso drama, é só uma dorzinha delicada e intensa, uma inflamação que fica lá, irritando e te alertando de quem você realmente é. Pequenas dores também irritam. 

sexta-feira, 15 de abril de 2011

a incerteza é que tortura


☊ help i'm alive

"Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência... Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade! Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio! Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente... Isto é um princípio da natureza! Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância! Solidão é muito mais do que isto..."

(Fátima Irene Pinto)

Sente a aproximação da primavera.
O vento prepara a terra.
E às vezes a espera é em vão.
Aquele doce, que veio da fruta madura,
da mais conveniente fruta escolhida.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

aquela vontade de voltar


☊ soul to squeeze

"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma."

(Lewis Carroll)

Era como se houvessem me acertado um soco no estômago. Não existia remédio que curasse essa dor. Tudo iria desmoronar em cima do meu corpo frágil e o chão se romperia e me sugaria por completa. Me peguei me torturando de novo. Mas só vi que era tortura quando voltei ao presente, durante a maior parte do tempo foi uma espécie de saudade. Em alguns segundos eu seria rebaixada à nada. Mas tive o impulso de abaixar a cabeça e o sangue voltou aos vasos e veias. E por fim, pude me sentir aliviada.

terça-feira, 12 de abril de 2011

it just hurts, that's all


☊ field of innocence

"Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará."

(Caio Fernando Abreu)


Todo mundo já perdeu alguma coisa bastante importante. Uma pessoa especial, um amigo, um avô, um amor. Para lidar com isso você precisa ser forte para suportar a dor e usar todas as suas chances de ser ouvido.
Perder é uma das coisas mais árduas do mundo, porque perdemos não só a pessoa especial, mas parece que um pouco da gente parte também, para sempre. Isso inclui seu sorriso, seu brilho e muito além.
É impossível pensar na nossa vida e no quanto tudo é passageiro quando uma pessoa importante morre. E vê-las partir, uma após outra.
Hoje eu pensei nisso. Na dor de uma amiga que perdeu o pai e logo em seguida, perdeu a mãe. Apenas aquele silêncio cego e indolor. O vazio profundo que é virar para o lado e não encontrar essas pessoas de uma vida toda. A morte é um espelho. Já tive perdas significativas na minha vida e todas essas ausências ainda doem muito. Mas tudo serve pra gente pensar se cada minuto que temos está sendo gasto como deve ser, mesmo com todos os transtornos que ao longo do dia temos, mesmo que tudo não esteja como tínhamos imaginado, será que estamos fazendo o nosso melhor? A morte e apenas ela, clara e limpa como um cristal.
Hoje foi um dia triste pra mim. E muitas questões ainda pairam por aqui. Nelas, a memória estava presente, preenchendo um espaço infinito de lembranças daqueles que me deram paz em uma vida de guerra. Por entre as saudades.



 

domingo, 10 de abril de 2011

me encontre



"Então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo - o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto."

(Antônio Prata)

E então a vida segue o seu caminho.
E nuvens já não são mais sinônimo de melancolia.
O tempo passa.
Firme como rocha, estável.
Flores se escondem para brotarem na próxima estação.
Solidão, frieza, covardia e medo.
A pureza da criança é espalhada;
Enquanto isso o velho pensa que não viu aqueles anos correrem.
Da grandeza dos pequenos gestos.
Em um dia a tristeza se aloja por dentro. Eia. No dia seguinte o sol derrama pelo horizonte.
Não morreu, no entanto.
Anda pelas folhinhas do calendário, insaciável por um momento de descanso imaginário.
A vida fica pequena se você não tem com quem dividir as suas besteiras.
Comemora teu aniversário. Carnaval. O Natal. Deveria comemorar o tempo todo.
Mas não era o tempo certo. Não existe lugar nem hora certa para dizer adeus.
Os ônibus podem ser lentos. Vazios ou cheios.
A parte mais interessante é aguardar por eles na parada. Sempre.
Os nossos caminhos se cruzam. E o teu corta com o dele e o dela.
Mas poucos de nós chegam ao fim da linha.
Pode-se constatar que os diferentes tons de adeus realmente significam algo;
Que na despedida pode-se prever a finitude dos encontros.
Aparecem outros tempos. Outras épocas. Novas cenas.
Além disso, o personagem serve-se do mesmo figurino.
O beijo de despedida não parece nem o ensaio do primeiro.
Alguém desfaz um sonho teu. Que outrem pode lhe restituir.
Quatro e meia, seis e quarenta e cinco, nove e cinquenta e seis, onze e vinte, meia noite
Ponteiros andam depressa. O dia surge tantas outras vezes. As águas é que não retornam mais.
Se fosse sol, se fosse rosa, se fosse inverno, se fosse outra?
Enquanto vê o que está acontecendo no mundo. E às vezes seu gesto é tão tênue que se coloca em esquecimento.
Mas eis que está.
E então a vida segue o seu caminho.
Existem pessoas fadadas a transformar o amor em algo belo por seus atos, por sua reciprocidade e delícia de tardes de sol e corpos nus.
Para a nossa sorte. Sempre.