"Comecei a me preparar, acendendo o
incenso de sândalo, arrumando sobre a cama as almofadas lilases, apagando a luz
do canto, acendendo a da cabeceira, mais íntima, sob o lenço abissínio, para
que me encontrem em paz e sintam-se perfeitamente à vontade nesta nuvem roxa
suspensa que habito e que chamo às vezes, irônica, de 'meu
mundo'."
(Caio Fernando Abreu)
Tive uma sensação como se duas mãos me cobrissem
os olhos de um jeito muito rápido, antes mesmo que eu tivesse a chance de
questionar quem era e do nada, foi apenas a urgência de sair imediatamente de
casa e correr pra rua, sem estar certa pra que ponto exatamente. Preciso
começar de onde parei e começar está se tornando algo difícil. Bater porta
sabendo que vai voltar, insultar sabendo que o outro vai desculpar, fazer bobagens
que irão irritar por bastante tempo. Fazer amor prazeroso depois disso tudo. Novas
situações, novos cenários, novos dialetos. Nova forma de ver o mundo com os
mesmos olhos, mas com outra visão. É o que se espera, mas nem sempre o corpo
acompanha. Tudo tem sido um aprendizado. Tudo tem sido uma só certeza. Tive um dejavu canalha. Coração na boca, uma saudade sem fim e vontade
de colo. Uma cumplicidade assustadora. E ter medo é minha obrigação e meu
talento. Aquele abraço capaz de segurar o mundo é como se fosse a última melhor
lembrança que pudesse ter na vida. O
resto é apenas dor de cabeça de uma noite mal dormida.