quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sem saída



"Eu sei como é se sentir extremamente pequena e insignificante e como isso dói em lugares que você nem sabia que tinha em você. E não importa quantos cortes de cabelo você faça, quantas vezes vá a academia ou quantas garrafas você toma com suas amigas, você continua indo pra cama todas as noites… repassando todos os detalhes e se perguntando o que fez de errado ou como pôde ter entendido errado... ou como por aquele momento pensou que era feliz."

(Filme: O Amor não tira férias)



Tem momentos que nada está bem, me mexo na cama como se fosse um bife na frigideira, mas parece que jamais me sinto satisfeita. Perdida em algum ponto entre a certeza e o abismo. Possivelmente aquele vestido que hoje me vestia muito bem, amanhã me fará parecer gorda, ou então aqueles sapatos que quando comprei foram, na minha opinião, uma boa aquisição e hoje estão no armário cobertos de poeira e acumulando mofo. Assim, simplesmente.
Minha vida anda do mesmo jeito... me perdendo do por que da caminhada.
Como se minha alma não quisesse mais permanecer no meu corpo, como se ela tivesse vontade de sair para algum lugar, aborrecida por ter de ficar aqui neste lugar. Se ao menos não fosse tão limitada como é. Para ela, algo não caminha bem, mas ela teima em permanecer em silêncio e só se agitar dentro de mim como pipocas estourando numa panela. Esse inferno a embota.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Coisas da vida"




"Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta.

Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou. Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente.

Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá.

Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento."


Martha Medeiros