sexta-feira, 26 de agosto de 2011

misturas efêmeras





Lá é impossível se perder. Lá as pessoas não te recebem sorrindo, nem as crianças te seguem em suas bicicletas, quando você chega na cidade. Vai saber por que.
Lá as ruas e as praças não são tão bonitas e você jamais achará uma pessoa no supermercado que te ajude a decidir entre um desinfetante de lavanda ou de jasmim e, nem mesmo, uma pessoa que te desenhe um criativo mapa completamente encantador dos lugares que você deve visitar. E de nenhum outro jeito.
Nada acontece lá. São os mesmos lugares, os mesmos rostos, o mesmo cheiro e o mesmo silêncio. Que não tem outro jeito.
Lá é o contrário daqueles locais onde tudo acontece. Ou acontece e eu é que desconheça.
Em lugares onde tudo acontece, nada dura. Ao som de ruídos e músicas estranhas, as coisas não permanecem. É sempre assim, sempre. Isto ou aquilo e nem sempre se pode ficar tranquilo. Difícil é encontrar um mesmo rosto, um mesmo cheiro. São sempre novas pessoas. Novos ares e aromas.
A constante mesmice me irrita. A constante mudança me cansa. Se é tudo ou nada, então estou cansada e irritada. Faço novas descobertas ao meu próprio respeito.
Foi desse jeito que aprendi a gostar das menores doses. Deixei de ser radical. Algumas confirmações. Novos riscos. Algumas boas surpresas.
Depois de bastante tempo cansada, eu vejo que, ficando exausta, eu tinha um lugar onde eu poderia descansar. E eu ficaria neste lugar até pouco antes de me irritar com a mesmice de lugares onde nada acontece. As chateações sairiam todas pela porta dos fundos. Depois eu retornaria para o caos e antes de cansar, voltaria para o silêncio. Antes de me irritar com o silêncio, eu retornaria para os rostos desconhecidos e os cheiros novos – lá eu permaneceria até pouco antes de cansar, pois depois eu voltaria para os antigos rostos e o velho conhecido cheiro do meu lugar. Enfim, absorvo apenas o que de melhor posso, embora acabo sempre por deixar escorrer entre os dedos algumas coisas, não é possível absorver tudo e também não é possível esquecer algumas coisas que me entristecem, que machucam.
O meu lugar é lá. E por mais que nada aconteça lá, eu sempre voltarei.

domingo, 21 de agosto de 2011

Essa forte doçura




Quando escuto aquele célebre clichê que atinge a vida como um filme de sessão da tarde com alguma lição de moral, invariavelmente minha mente cria outro raciocínio. Olho quase sem querer pra frente, num desses gestos ínfimos que são capazes de mudar a vida de qualquer pessoa de pouca fé. Vejo uma pessoa digna de todo crédito como um confronto entre nossa vida e um livro biográfico. Nesses momentos, penso em Godard pra delírio dos mais piedosos e decadentes leitores. À proporção que se ganha experiência, este trabalho difícil de ser compreendido, segue-se enriquecendo de palavras ilusórias, de fatos transformados em verbos. Mesmo com a rotina impondo encontros diários entre personagens. Contudo, a cada novo dia, um novo capítulo é acrescentado a esta obra. Este excelente trabalho, todavia, não admite ser editado. E a vida continua, sem sentido algum. Não permite que seja modificada ou revisada. E só. Terminando-se o total de páginas escritas, cada obra tem seu tempo entre o começo e o fim, vai como achar às prateleiras, onde é examinada pelos consumidores. Essa doçura forte. Se parecer aprazível, com frases e tempos decorridos sobre uma vida completa, enérgica e aproveitável, muita gente compra e lê. Se for desagradável, não tendo algo que incremente o próprio livro daquele que lê, as traças se tornam suas companheiras inseparáveis. Eu passei um certo tempo achando que tinha que mudar tudo no meu livro, deixar de ser tudo o que sou, pra poder ser forte – e mais do que isso, para poder provar aos outros a minha força. Na minha passagem por este mundo, tenho esperanças de poder escrever muita coisa que desperte interesses. Compreendo a marcha e vou tocando a frente, como diria o cantor. Meu livro, aspiração, deixando a modéstia de lado, que seja repleto de excertos de impacto, os quais suponho que deem ao futuro leitor aprendizado útil. Um caminho imenso, que é meu e não precisa ser mudado. Ainda estou no início, óbvio, mas já percorri vários livros, em várias estantes. E há outros tantos ainda a serem escritos. E vejo, também, que, infelizmente, há alguns livros que jamais serão vendidos, pelo mero fato de neles consistirem somente páginas em branco.

sábado, 13 de agosto de 2011

o começo de uma história sem fim





Ela desperta e nem mostra sinas que vive. Fica cansada e acaricia os cabelos num jeito de esgotar os pensamentos inquietos. É séria demais pra admitir pra si mesma que não sabe amar. Não cede ao sono tranquilo e põe-se de pé lentamente. E nem precisa.
Não aconteceu nada de novo. E de repente da mágoa se fez preguiça. Preguiça de tentar.
Inunda-se, então, de 
aflições e fobias. Arruma a mochila e apronta sua rotina. Anda pelas ruas como quem sai batendo portas e transportando nuvens escuras, que não tarda virar uma tempestade. Quem sabe algumas coisas já não caibam mais na sua vida, por mais que ela queira que caibam. Seus olhos vagueiam por entre as pessoas, os animais e os lugares. Tentando aceitar que as coisas mudam, que as pessoas mudam.
Os lábios, 
assíduos, clamam seu nome. Os letreiros bradam, em um conjunto de ideias levianas, seu nome e ela se satisfaz plenamente de si mesma. Parou de reclamar. Abriu mais os olhos e fechou a boca.
Recorda-se da sua penúria frente ao espelho, dos seus 'culotes' mal formados, seus ombros largos, suas coxas grossas, busto pequeno e braços frágeis. Estava acostumada a estar só, flutuando numa existência tão ridícula quanto as desculpas que dava pra si mesma pra permanecer nesse estado. Fizeram-lhe em tudo vaga, mas deram-lhe dois olhos e equilibraram todos os seus estorvos. Olhos que percebem. Olhos de olhares frágeis. Cansada de olhar pra baixo. Ela e seus olhos míopes.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

"Gosto das tuas notícias e do teu feeling"




Mais que amar é te acordar com um beijo, ao som de Make you feel my love.
Não saber como lidar contigo. Não saber como dizer que te amo de uma maneira que não pareça completamente estúpida ou completamente fraca.
Dormir à tarde quando a gente sentir vontade.
Te beijar e depois te bater.
Devorar todas as empadas e colocar à mesa o desejo.
Dizer tantas coisas que te façam duvidar de qualquer um dos meus sentimentos.
Acordar na madrugada e te proteger do frio.
E mostrar durante o dia compartilhado o presente que é ficar ao teu lado.
Te querer por perto ou a uma distância segura.
É mais que amor.