segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

extremos da paixão




"Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso."

(Caio Fernando Abreu)

Proferi lentamente as letras do seu nome, um sorriso se alastrava pelo meu rosto, desmanchando-se em um delicado som doce, atirado para as nuvens que me observavam vistosamente.
Eram várias as vezes que deparara com tal situação.
Era simples te achar, mesmo que sua ausência fosse desmedida eu conseguia tocá-lo em meus devaneios.
O coração é algo engraçado, não é?
Sim. O céu sorria em minha direção, talvez eu conseguisse chegar até ele se todo esse encanto conseguisse me fazer flutuar.
Nem sei expressar com palavras o que estou sentindo, talvez elas não bastem, pois sempre existe algo que não consigo dizer.
Procurei não saber da sua existência em meus pensamentos, mas o desejo de senti-lo perto abarcava qualquer lugar na minha mente.
Está tudo tão confuso que nem sei o que pensar. Na verdade eu sei.
Fecho os olhos e consigo fantasiar, idealizo sua boca e desvendo seu gosto de uísque e licor.
Bem intenso às minhas lembranças, me embriago desse sabor que me atravessa rapidamente a alma.
É tão forte e tão suave esse teu beijo.
Até quando ficarei sem teu carinho, sem poder sentir suas mãos?
Me esqueço em meus devaneios e sei que não sou tua.
Sinto seu cheiro ao me abraçar, suas mãos quentes me tocando.
Possuo você por completo, aqui dentro de mim.
Sua pele roçando na minha, seus dedos deslizando no meu corpo, sua boca beijando meus lábios.
Imagino as palpitações do seu coração tão desproporcionais junto ao meu.
Minhas mãos percorrendo seu corpo, deslizando em cada centímetro teu.
Seu fôlego arranca-me o ar.
Nossos corpos se enlaçando, saciando nosso desejo.
O seu perfume ocupa todas as moléculas de minha pele.
Injustiças.
Satisfaz-me um beijo seu, satisfaz-me um som doce.
Coisa de cheiro, pele e química.
Um suave sabor de chocolate e laranja, que permanece grudado em mim.
Compatibilidade.
Eu necessito ficar envolvida em seus braços para me permanecer completa.
E quando a sua voz chega aos meus ouvidos eu vou até o céu.
Como o encaixe perfeito.
Eu escuto suas risadas, percebo o seu sabor descansando em minha boca, consumindo lágrimas, restaurando esperanças.
Você não chegou a conhecer algumas das minhas alegrias mais inocentes.
Eu sonho acordada pra me guiar até você.
Sonhos não deveriam estar ao alcance de todos.
Estendo meu corpo sob a chuva.
”Por que chove tanto e você não vem?”
Faço rabiscos de um pôr do sol entre nuvens de algodão, desprezo o vento...
E furto teu coração.

domingo, 23 de janeiro de 2011

that's really nothing left to say...



Já não sei se estou preparada para amar como já amei. Agora não sei mais se enfrento a vida desse jeito e desisto. Por uma vida menos ordinária. Está ruim desse jeito, mas em breve muda que eu sei. Melhor assim. O tempo entende tudo e confio nele, sei que consigo melhorar, sendo o que sou. Sinto-me um texto inacabado, qualquer texto produzido por uma criança do primário que não sabe ainda onde colocar as vírgulas, os pontos, os travessões; sem coesão. Amei uma vez e como é complicado amar de novo, parece que nos rouba tempo e sacrifícios. Não dá para entender. Parece bacana e existe a possibilidade de ser ruim no fim. É como se eu começasse uma história sozinha e terminasse essa história sozinha. Jamais pensei que fosse tão sufocante desse jeito, ter consciência de que já se viveu algo inigualável com alguém e imaginar que talvez não possa sentir e viver de novo. Uma relação com a melhor parte, o amor em ações e em palavras. De fato, não existe mais nada a se dizer...

"Dançarás - disse o anjo
Dançarás com teus sapatos vermelhos
Dançarás de porta em porta
Dançarás, dançarás sempre."

(Andersen)
 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

entre lembranças e esquecimentos



Não tenho asas como as borboletas
Por esse motivo meu voo é através das palavras
Não estou certa do que desejo
Por esse motivo perco a esperança
Não compreendo o que sinto
Por esse motivo algumas vezes escondo a verdade
Não tenho mais você na minha história
Por esse motivo arrancá-lo-ei da memória 
E sempre torno a pensar em você, 
na hora que vou dormir, 
no momento que acordo, 
penso se talvez em alguma parte do seu dia, 
pense na menina amarela e pés engraçados que ocupava seus cafés 
e algumas vezes te fazia rir.

"Como eram mesmo aqueles versos que falavam em primaveras, em morrer, em nascer de novo? Como eram, você lembra? - ele perguntou subitamente ansioso e meio infantil, puxando-a pelo pé como fazia às vezes nas manhãs de domingo, quando ela demorava a acordar e ele insistia cantando cantigas inventadas num ritmo de caixinha de música: Venha ver o sol oh meu amor! vista sua saia, vamos para a praia! o dia está tão lindo oh meu amor! hoje é domingo lindo de sol.
(...)
- Cecília Meireles, era Cecília Meireles, era um poema assim que eu dizia: “Levai-me por onde quiserdes! aprendi com as primaveras a deixar-me cortar! e a voltar sempre inteira”.
Ele apagou o cigarro. Depois bateu palmas como uma criança:
- Que bonito, que bonito. Como é mesmo?
- E recitaram juntos (...) “Levai-me por onde quiserdes! aprendi com as primaveras a deixar-me cortar! e a voltar sempre inteira”."

(Caio Fernando Abreu
)

não quero mais a realidade comum



Seja bem vindo à época de 'jamais aposte muito em alguma coisa que não lhe é proveitosa'; hoje vivemos a era das quimeras, do amor nosso de cada fim de semana, da falta de esperança das pessoas. Amores são sempre possíveis, sim.
É fato que o universo é justamente em torno do umbigo de cada um, que vive
do seu jeito e desempenha aquilo que é melhor para si.
Mas enfim, pra que imaginar em causar alguma coisa pra alguém?
Pra que é favorável ou foi favorável o favor? A alternância? Nessas noites sem álcool, os dias ficam muito mais estranhos de se entender.
Sendo agora mais específica...
Vejo com admiração minha falta de capacidade. A minha teimosia em ser aprazível, em ser prudente, em ser boba, desagradável, insignificante. Porque o que sinto hoje me é esquisito e não me cabe, já não escrevo; vomito palavras que ardem para sair.
Procurar ver o que várias pessoas não veem, procurar satisfazer uma coisa que não me satisfaz. Nesses dias sem álcool, conclusões me transtornam a cabeça, meus textos me destroem involuntariamente, insignificantemente a linearidade do cotidiano.
Ainda que pra alguns seja complicado ceder, eu acendo gentileza, trago a felicidade e aproveito a vagabundagem da melancolia... como um último cigarro.  

"Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."

(Clarice Lispector)
 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

mania de esperança



Já planejava em pôr as fotos novamente nos porta retratos.
Já aguardava com impaciência sua volta.
Os azulejos e a branquidão do quarto contradiziam os sons e barulhos que ouvia por todos os lados.
Gerou uma porção de novas recordações; canções que não significariam coisa alguma, agora a obrigam pensar nele.
Sentia que iria explodir em prantos, mas não conseguia.
Já havia esquecido aquele sorriso; agora procura limpá-lo de novo da memória.

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."

(Caio Fernando Abreu)