sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

a última do ano



"Algum dia em qualquer parte, em qualquer lugar indefectivelmente te encontrarás a ti mesmo, e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga de tuas horas."

(Pablo Neruda )

 
O vaso quebrou. Eu olhei pro lado e tive vontade de chorar. Eu continuo aqui.
Que a vida está me causando dor, isso está. A vida é cheia de encruzilhadas, eu sei.

Eu olhei pro nosso retrato e percebi naquele lugar que talvez devesse ser melhor...
Para você... novos ares e caminhos.

Eu não consigo ser pra ele. Eu não sei ser para ele.
E isso me machuca bastante.
Porque eu não sou nem pra mim mesma.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

distante de nós



"Que esta minha paz e este meu amado silêncio.
Não iludam a ninguém.
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta.
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios.
Acho-me relativamente feliz...
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!"

(Mario Quintana)


Um dia nós nos conhecemos. Era poesia a cada momento, em todas as esquinas do cotidiano.
Foi uma coisa muito intensa. Um negócio de força maior. Tipo da coisa que só se sabe quando se vive.
Eu precisava das palavras dele, da racionalidade, do sentimento que ele tinha por mim. Compreendi a magia harmônica da vida, o sentido oculto de existir e ser humano, a beleza do amor que tanto se dá.
Ele precisava de mim. Precisava da minha alegria e falta de preocupação com tudo. Porque a gente foi mudando, foi crescendo, foi deixando de querer algumas coisas e passando a querer outras.
Era como um equilíbrio e a origem de tudo era uma paixão maior do mundo. Maior. Maior que qualquer discórdia familiar, dinheiro, ciúmes, inveja, distância ou lugar. Fomos deixando de lado uma porção de conceitos e verdades absolutas e aos poucos acabamos descobrindo o que era importante. A gente se precisava como remédio, como curativo.
No fim das contas, um dia me sentei sozinha, no escuro, no fim do dia que eu mais precisei dele e me senti perdida. Mas um dia eu curei.
Sai da cama, pude caminhar descalça pelo chão gelado, prender o cabelo e rir alto, sem controle. Sem vozes alheias nem julgamentos externos.
A garganta já não doía. O que é importante ali, eu comigo mesma.
Nada mais doía como antes. Porque eu acho mesmo que a grande verdade, a única absoluta da vida, é a inconstância.
A gangorra caiu e eu fui arremessada para o céu, quase atingindo as estrelas e voltei para a terra, me pondo em equilíbrio. 

Pra não sofrer, o diminui em apenas uma letra; a letra inicial do seu nome. Mas o que não sabia é que desse jeito o deixava maior, a ponto de merecer suas palavras. E que assim seja.
Voltei a ser o que eu jamais fui. 

"Num sentido de sorte, as palavras fluem e prefiro apostar numa roleta qualquer em Vegas ou numa cidade fluoretada... assim quis ser sem querer ter o que ofusca a tal razão escondida em 'qualquer lugar, com qualquer um, fazendo qualquer coisa.'"

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

de repente, tudo muda



"Não sei explicar. Essa coisa nova dentro de mim me dá assim como uma espécie de... como era mesmo aquela coisa antiga que a gente sentia quando acreditava em alguma coisa?
— Fé? Meu Deus, você está sentindo fé?
— Pode ser. Fé. E isso ai".

(Caio Fernando Abreu)


Completa. É assim que hoje me julgo. De súbito, assim como quem de repente se dá conta da sorte que tem, agradeci. Repleta de vida, como se uma brisa de existência tivesse ventado bem forte aqui dentro. A cada dia me aproximando mais de tudo aquilo que posso e desejo ser.
Feliz. É assim que hoje me retiro. 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

borboletas no estômago



"Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és. E sou assombrado pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever — mas sou obrigado a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço."

(Clarice Lispector)


Ela que ama sem conhecer. Que tem consciência de ser amada, só não está certa por quem. Que ele aceite esse sentimento de forma tão machucada e falsa, sem nunca conversar a respeito. Ela que sonha, ainda, achá-lo em qualquer lugar. Ela também não tem a mínima ideia de onde ele está ou do que sente. Ela que é espreitada de longe por quem ela ama, mas não tem iniciativa para conseguir tê-la. Se a quer por perto ou a uma distância segura. Ela que é linda, que se ama, que deseja amá-lo. Mesmo que ele saiba de tudo isso, mesmo que ele ria de tudo isso. Já falaram que ela tem olhos de vírgula, parecidos com uma clave de fá. Jamais terá seus olhos traçados de um jeito tão normal-anormal. Ela é séria demais para admitir para si mesma que não sabe amar. Ela que não quer nada de mais, telefonemas no meio da noite, sorvetes no domingo à tarde, filmes sábado à noite, colo na tristeza, abraço inesperado e intenso. Tempo de calar. Sorriso sincero ao vê-lo.