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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Coisas da vida"




"Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta.

Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou. Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente.

Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá.

Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento."


Martha Medeiros

terça-feira, 26 de julho de 2011

auto-sabotagem


☊ history 


"Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias demências e tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto."

(Martha Medeiros)



Só existe chance de sentir a dor.
Ela e apenas ela, clara e limpa como um cristal.
Cruel, pulsante, torturante; somente a ela devo cobiçar.
Nela, a memória está presente, preenchendo um espaço infinito de lembranças daqueles que me deram paz em uma vida de guerra.


- Salve-me do peso de não existir. Proteja-me dessa tortura.


Seja grandioso em tua existência, frágil, discordante; corte minhas veias e deixe jorrar, diáfano, minha constante desordem.
Para que a escuridão do futuro não tenha importância, pois já tive tudo que poderia querer e querer mais seria apenas ganância.


- Minha fantasia de santificação e tormento! Se eu fechar meus olhos lentamente, sei que posso te sentir.


Sublimes os que te possuem como martírio.
Lembrei-me da solidão que tanto me avisaste.
Somente tu compreendes o meu viver.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

o problema do outro


☊ i am only one 


"A gente nunca fica satisfeita com os desfechos de nossos relacionamentos: se não conseguimos esquecer alguém, sofremos. Se conseguimos, lamentamos o quão pueril tornou-se o passado. Senti uma fisgada hoje pela manhã que nada mais era do que a dor da perda, mas não a perda de uma pessoa, e sim de uma etapa vencida. Acho que agora compreendo quando, ao subir uma montanha muito íngreme, recomendam que a gente não olhe para baixo."


(Martha Medeiros)


Sou uma pessoa triste. Não sei se é mais belo ou mais verdadeiro assumir isto. Ah, não importa. Não penso que a tristeza me seja um peso, sou uma pessoa triste porque é constantemente bonito, constantemente doloroso e bem mais simples. Às vezes, passa tão despercebida por ser tão natural. A imaginação vem da nostalgia de quem já brilhou e perde o encanto. Mas confunde também. O romantismo vem de quem já amou e agora se lamenta. Como o encaixe perfeito. É! De que adiantaria um dispositivo ter aquilo que o outro precisa se eles não se moldam? Por mais que pense que não tenha vivido algum momento que possa falar com bastante certeza que tenha sido um momento de amor, por mais que saiba que vivi minha vida bem mais na cabeça de outras pessoas do que na minha mesmo, por mais que isto e por mais que aquilo, hoje eu posso dizer que estou desencantando e lamentando. Porque dei um tempo na minha vida pra observar a vida de outras pessoas, qualquer que seja e assim, percebi o romantismo delas e choro um lamento que não é o meu e também não é de alguém.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

o guerreiro descansa



"A falta de definição, por si só, define a vida. Tudo é transitório, nossas manias, nossos pensamentos, nossos amores, nossos pontos de vista. Sabemos quem somos e o que sentimos, mas não sabemos até quando. Estamos em trânsito, e a definição só virá quando não estivermos mais aqui para entendê-la."

(Martha Medeiros)

A vida nos prepara dolorosas surpresas. Sem conseguir evitar, chorei quando abri o livro da minha escritora preferida. Naquela página manchada por lágrimas. Um frio perigoso correu pela minha espinha. Senti o caminho tortuoso que o passado fazia para que finalmente, sentisse o coração em chamas. Senti o seu perfume ainda preservado por vários anos. Éramos tão diferentes em toda nossa estrutura. Não tínhamos o mesmo gosto musical e nem mesmo nossos sonhos eram semelhantes. O seu cartão de Natal, dobrado com delicadeza, se encontrava em duas folhas pregadas por um adesivo. Não sei bem por quê ele estava ali, mas desconfio que seja a divisão de um futuro e um passado. Passei os olhos pelo discreto bilhete rapidamente, na vontade de chegar onde estavam suas palavras apaixonadas. Eu detestava saber de antemão os seus sentimentos e os rumos de nossos destinos, mas eu sabia. Respirei fundo quando percebi que faltava pouco. Saber de algo que havia esquecido, na incerteza do próprio sentimento que corre alheio a qualquer forma de lógica e que mesmo assim te tortura e quase sempre se confirma e não deixa de ser uma forma excruciante de viver. Apenas os nossos nomes, juntos; era o que tinha desenhado. Você não era muito bom com palavras como era com os desenhos. Mas aquilo foi o suficiente pra mim. O peso. Corri os dedos pelos detalhes do papel e a tinta. As coisas são bem diferentes quando você guarda no peito um peso. Depois de contrariar as minhas fracas lembranças, me recordei das suas reações diante da minha euforia em abrir o presente. Aquele bilhete discreto - somente com duas palavras escritas por você - tinha o fardo da sua falta. Mas não só isso; despertava, o que por várias noites, uma parte minha que achava estar morta e enterrada com você.
    

domingo, 1 de maio de 2011

outro desvio crônico


☊ 7th symphony - allegretto

"Sabe aquele milho que sobra na panela e se recusa a virar um floquinho branco, macio e alegre? Se chama piruá.Tem muita gente piruá neste planeta. Gente que não reage ao calor, que não desabrocha. Fica ali, duro, triste, inútil pro resto da vida. Não cumpre sua sina de revelar-se, de transformar-se em algo melhor. Não vira pipoca, mantém-se piruá. E um piruá emburrado, que reclama que nada lhe acontece de bom. Pois é... Perdeu a oportunidade de entregar-se ao fogo, tentou se preservar, danou-se. Com isso quero mostrar para aqueles que têm vocação para piruá que o importante na vida é reagir às emoções e não se manter frio, fechado, feito um grão de milho que não honrou seu destino..."

(Martha Medeiros)

Certa vez, inocentemente, olhei o relógio e vi o tempo de um beijo. Aquele nosso beijo durou 7 minutos. Hoje eu saboreei um pedacinho dessa lembrança guardada embrulhadinha no canto da gaveta. Foram 7 minutos de nós dois e aquele friozinho na minha barriga. E eu, que achava que tinha tanto amor dentro de mim e que poderia dar-te amor pra sempre. Agora que muito já se foi, sou forçada a pensar em tudo que consigo fazer em 7 minutos: Conversar com minha avó sobre histórias passadas. Caminhar até à praça mais próxima da minha casa. Ouvir uma música de Beethoven. Levar a Mel pra passear pelo quarteirão. Ler uma parte do meu material de Terminologia enquanto espero o esmalte das unhas secar. Ficar lembrando dos meus dois melhores amigos quando vejo cenas clichês de adolescentes. Ouvir a Mayara agitar assuntos com as últimas novidades da faculdade. Ouvir as mais tristes músicas deitada no chão do quarto. Caminhar pela orla no fim da tarde. Atualizar minhas contas em redes socias. Dançar, cantar, cozinhar, comer, tirar fotos, jogar cartas e bilhetes fora, fazer planos para o futuro, pensar em viagens, ficar em silêncio olhando para o relógio por 7 minutos. E escrever esse texto. Agora que os seus 7 minutos não me pertencem mais, sou forçada a rir de tudo que consigo fazer neste tempo. A vida poderia acabar agora e tudo estaria bem, porque eu estou aqui, pensando naquele tempo. Mesmo que, em 7 minutos, eu deseje te beijar.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

valentine's day



"Dá pra escolher entre ser carnívoro ou vegetariano, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar paciência ou ler um livro, entre amores serenos ou amores turbulentos. Se a escolha será acertada, aí já é outro assunto, o futuro vai dizer. Pensando bem, acertos e erros nem estão em pauta aqui. O que importa é ter consciência de que ficar sentado esperando que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Descansados da silva, vem o tempo e crau: nos ultrapassa."

(Martha Medeiros)

Do que você lembra quando pensa em mim?

Da menina que te ajudou a carregar suas sacolas de compras até o carro na primeira vez que nos vimos ou da menina triste com o coração partido? Mas eu não estou bem certa se fui justa, sendo o coração aquela velha máquina de distorcer os fatos e torná-los cabíveis com o que se quer sentir no momento. 

domingo, 16 de janeiro de 2011

sem clima



Vejo que é bem simples tornar responsável outra pessoa pelo que acontece de mau na nossa vida. A gente tenta reparar os erros. Citar o próximo como autor de toda infelicidade e se livrar de qualquer pecado, se é que existe. Na verdade, o problema não é o ato e sim a razão. Se ele não tivesse falado, feito, insinuado, prometido, enfim, as coisas teriam sido de outro jeito. E aqui, nem se discuti se de 'outro jeito' é bom ou ruim. Mas, o causador da transformação, aquele que chega de longe, vem apenas pra causar destruição, sem compaixão, nem dó. Isso, nos põe no lugar de vítima, que é bastante confortável, mas que é também bem mesquinha e desleal. Complexo de sofredor. Eu não desejo essa posição pra mim. De jeito nenhum.


"Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor - até que venha a próxima, normais que somos!"

(Martha Medeiros)