segunda-feira, 30 de maio de 2011

e aí, tempo?


☊ revelry

"Aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça
Tomando champanhe ou não
Aprendi da importância de não dar muita importância
Ficar com os meus pés no chão
Aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França

Mesmo indo de avião
Aprendi que a descrença, a desconfiança e a doença
São partes da maldição
Aprendi que a ignorância, a sordidez e a ganância
São lavas desse vulcão
Aprendi que essa fumaça a minha janela embaça
Por fora, por dentro, não"

(Itamar Assumpção)

Morre-se devagar. Esse inferno que embota a alma.
De princípio, apagam-se as luzes. Não se vê mais (ora, se não há o que ver, o ato de abrir os olhos pode perder totalmente o sentido).
Logo é a luz que o apaga. A despeito de tudo e encorajado pela infinitude da escuridão de si mesmo, continua-se, assim mesmo: olhos fechados, óculos pendurados inutilmente na mão, o suor a ensopar as roupas, os cabelos e os pensamentos.
O sol aguenta bastante, mas apaga também. Ao menos, é o que dizem.
Na escuridão não se vê nada. Não vê nada e ainda assim se sabe tudo. Descobre-se, pra nunca mais perder-se.
Se não existir a luz própria, o lado sombrio domina e mata.

voltar à caminhada


☊ sonnet

"A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdido e pesado pelos dias afora. E ninguém vê que estou morto."

(Caio Fernando Abreu)

Releio textos antigos, faço chover papel picado. Se ao menos tivesse outros poderes ou mesmo outras capacidades...
Minha sombra dança no meio da sala ao som daquela música que não me sai da cabeça e eu permaneço aqui, estática, lembrando; sobretudo uma capacidade desumana de sonhar, que não me combina com mais nada e me deixa um vazio angustiado no peito quando me ponho a pensar.
Já nem me recordo mais quando fiz amor por alguém.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

traduzir-me




☊ gravity ♪

"Doer, dói sempre.

Só não dói depois de morto.
Porque a vida toda é um doer."

(Rachel de Queiroz)



Por que hoje está sendo um dia tão irritante? Hoje eu queria simplesmente estar feliz e esperar de coração que isso fosse contagioso só de olhar.
Por que certas palavras tiveram o poder de me tirar do sério? Será que só eu estou perdida no tempo, sem chance de ser ou querer outras coisas se não aquelas que eram e queria, já tão cheia de ter esperanças?


Por que aquela redoma de palavras ainda tem tanta importância pra mim? Esse é o ponto do caminho em que devo me perder do motivo da caminhada?
Por que o meu primeiro artigo assinado não conseguiu me deixar feliz? O cansaço não me perdoou os ombros, acumulou seu peso e já não me permite caminhar sem um momento de descanso?


Cada letra escrita, cada sílaba mencionada, cada verso lido. Rendi-me. Sem pensar muito a respeito, reduzi a marcha, parei sem aviso e me sentei à beira.


Hoje, eu desejei ser cega e não saber ler.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

dois ponto cinco


☊ coisas da vida

"Lóri estava triste. Não era uma tristeza difícil. Era mais como uma tristeza de saudade. Ela estava só. Com a eternidade à sua frente e atrás dela. O humano é só. Ela quis retroceder. Mas sentia que era tarde demais: uma vez dado o primeiro passo este era irreversível, e empurrava-a para mais, mais, mais! O que quero, meu Deus. É que ela queria tudo."

(Clarice Lispector)

É isso, lógico. Como não havia pensado nisso antes? Acho que foram os gritos de desespero que calaram meus pensamentos e me tiraram a atenção. E essa semana mais um acontecimento triste. E fiquei aqui com meus botões - que não tenho - pensando sobre os caminhos e descaminhos da vida, sobre as idas e voltas do destino, sobre as escolhas que fazemos (ou não) e suas consequências. Uma velha conhecida, dos tempos do colégio, desistiu. Da vida, de tudo. De fazer e refazer caminhos. Deixou bilhete de adeus e teve seu ato de coragem. E assim desistiu. Tão silenciosamente, como se a vida pertencesse só a ela e a mais ninguém que a amava. Mas pertence, mas pertencia. A vida é cheia de encruzilhadas, eu sei. Sim, eu sei.

Fiquei espantada com a intensidade que essas decisões têm. Ninguém é obrigado a tomar decisões conscientes - sejam quais forem.

Não dá um certo medo quando essas coisas acontecem? De que possa acontecer com a gente também? Ninguém é obrigado a ir além do óbvio, do que é repetido por todos, da facilidade do caminho que todo o resto segue. Mesmo que seja uma atitude deliberada. Pois o traço que dividi o desejo da atitude em si é muito frágil. Não me acho mais capaz de tomar decisões do que qualquer outro. É preciso ter sempre alguém cuidando de você pra que não exceda esse traço em momentos de desespero. Sejam eles quais forem, porque os meus não são os únicos.

Agora, eu não sei. De um certo modo, me senti envergonhada por ter sido muito fraca ultimamente. Dias de sentimentos diversos e tão intensos. Ângulos diferentes. Tem pessoas com problemas bem maiores que os meus. E, ao mesmo tempo, percebi que talvez eu nem seja tão fraca quanto penso. A minha vida é mesmo um grande liquidificador de misturas efêmeras.

Percebi isso. Afinal, ainda não desisti.

domingo, 22 de maio de 2011

e de nenhum outro jeito


call the police 



"Primeiro só via a pessoa ali sentada sozinha e achei que era um perigo ficar tão na beirada. Quando olhei de novo a pessoa estava de pé... E abriu os braços, mas não se atirou: saiu voando feito uma garça, devagarinho, meio planando, e não era depressa não, era devagar. Bonito de se ver..."


(Lya Luft)



Escrevi exatamente a frase inicial do texto e, inacreditavelmente, o papel voou com o vento, atravessou a janela e saiu voando como uma ave raquítica. Isso aí. Arregalei os olhos, os sustos têm sido normais, todos os dias, mais tarde nem isso, constantes voos de papéis, o celular que toca quando penso em te ligar, os livros espalhados pela casa, o filme que começa sozinho na sala, a certeza que o empadão ficou pronto. Tipo da coisa que só se sabe quando se vive. Hoje é um dia como outro qualquer, normal. Acho é graça.

sábado, 21 de maio de 2011

ando prestando atenção


☊ novos horizontes 



"Sou cheia de manias. Tenho carências insolúveis. Sou teimosa. Hipocondríaca. Raivosa, quando sinto-me atacada. Não como cebola. Só ando no banco da frente dos carros. Mas não imponho a minha pessoa a ninguém. Não imploro afeto. Não sou indiscreta nas minhas relações. Tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar os seus segredos. Então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira ser incomodado. Chateio só aqueles que não me acham uma chata, por isso me querem ao seu lado. Acho sim, que, às vezes, dou trabalho."

(Fernanda Young)




Eu estou em expansão com o universo. Um caminho imenso, que é meu e não precisa ser mudado.
Eu sou o dobro de um sentimento superior. O sentimento exclusivo e seu oposto. Sim, isso também.
Eu sou a reunião de desordens. Seja para as lágrimas ou para o riso. Seja pra chover, nublar ou ensolarar.
Eu sou aquela com uma grave questão e com uma grave mania de grandezas.





quarta-feira, 18 de maio de 2011

essa forte doçura


☊ remember you're a girl

"Queria dizer: Eu te amo: nunca mais te esqueci: Eu te lembro quando é outono: dói quando é inverno, mas desisto. Dizem: São somente palavras e o tempo tudo resolve. Mas o tempo não entende do tempo que levei para encontrar-te e, ele tampouco sabe da dor que me causa, quando te leva, só porque resolve tudo."

(Julio Almada)


Mas a fada da esperança achará o caminho de volta. Pegará a menina-alegria pelos ombros e lhe dará umas balançadas. Para fazer com que os maus pensamentos voem pra longe da cabecinha dela. Tentando ir por um caminho que não era o seu. Pra muito longe dali. A partir daí, então, imaginando contos onde príncipes e castelos e cavalos brancos tenham vez. Pois o idealizado não deixa de ser real. E a menina-alegria, enquanto espera a fada chegar, continua fazendo suas orações vezenquando, pra achar apenas lindezas e pétalas de sorrisos pelo caminho.

terça-feira, 17 de maio de 2011

é que ainda sobra um espaço


☊ equalize


"Eu preciso muito, muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você."

(Caio Fernando Abreu)

Já é madrugada. É normal a falta de sono chegar sem avisar e levar embora horas que eram para ser tranquilas e sonhadas. É o coração tomado de dor que atrai esse tipo de acontecimento. O chá não produz mais a boa impressão de indolência, acaba trazendo desconforto por dar um efeito que não mostra na embalagem. Tá certo. À noite você é uma criança. Chora como se não houvesse lágrimas suficiente e come apenas para poder sentir qualquer coisa pesando no seu corpo que não seja dor.

O dia foi cheio de situações tristes que não daria para enumerar nesse texto. É muito simples ficar reclamando, complicado é encontrar as respostas certas para facilitar esta proeza, este esforço que é sobreviver. E só.

O que era doce vai deixando de ter gosto até ficar sem graça. Saborear aos poucos precisa de muita calma, condição que foi arremessada no porão de enganos. E a falta de sono continua, em companhia de uma leve dor de cabeça, mas que não deixa de ser chata. Alma fria, insossa e frívola como uma estátua grega no meio de um deserto de gelo.

Às vezes, tudo aparenta ir bem. Mas, é apenas a consequência dos primeiros minutos que um bom brigadeiro causa. A sensação é rápida. Existe coisas mais fortes. Não há mais como evitar. A experiência, na verdade, não será desejável. Se bem que ilusões fazem parte do abstrato. Mas quem se importa?

A imaginação é uma necessidade. Fraqueza.

Nem areia nos olhos. Nem sonhos estranhos, esquecidos e sem sentido. Nem amores efêmeros. Nem telefonemas frustrantes. Nem menosprezos. Só existe a melancolia. E a madrugada.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

até dói



"Deve ser boa a vida de peixe de aquário, murmurei.
- Deve ser fácil. Aí ficam eles dia e noite, sem se preocupar com nada, há sempre alguém para lhes dar de comer, trocar a água... Uma vida fácil, sem dúvida. Mas não boa. Não se esqueça de que eles vivem dentro de um palmo de água quando há um mar lá adiante.
- No mar seriam devorados por um peixe maior, mãezinha.
- Mas pelo menos lutariam. E nesse aquário não há luta, filha. Nesse aquário não há vida."

(Lygia Fagundes Telles)

É uma certa-certa coisa que está presente aqui nesse momento, que parece não existir espaço nem para o ar entrar nos pulmões; que eu fico me questionando – o que devo fazer? – e nem é questão de vida ou morte. Mas logo a sombra negra da memória vem me avisar que era tudo mentira e não existe motivo pra ficar tranquila. É uma situação de pensar e pensar que não há tempo - e de que quero tempo, tempo pra secar tudo isso aqui, sabe? E a resposta desse tudo precisa ser encontrada logo, meu Deus, tanto tempo que eu tive pra resolver toda a situação que nem sei mais o que é melhor. Daquela vontade de sumir que eu já disse nos meus outros escritos; fazer, a gente sempre deve fazer. Mas mais uma vez caio no poço profundo das impossibilidades. Quem dera eu pudesse fazer nada e continuar assim respirando, respirando e só precisar pensar no que comer e não comer. Mas é coisa que eu não consigo passar por cima e mesmo imaginando o arrependimento mais na frente – até posso vê-lo – é o que eu preciso fazer, então eu vou fazer. Pois o tempo gosta de pirraçar, tempo gosta de – tempo esgotado! 

terça-feira, 10 de maio de 2011

"tudo está certo, no seu lugar..."



"Quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim."

(Cecília Meireles)

Esta náusea retardante que me define, já não menciona mais meus ideais intransitáveis.
Esta tristeza maldita que desatende às minhas ideologias.
É claramente a utopia deste amor arrebatador. 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"tenho medos bobos e coragens absurdas..."



"Uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa..."

(Caio Fernando Abreu)

Era manhã quando o fim se criou e você surgiu.
As flores pareciam tão imbecis quanto suas estúpidas cores.
Efetivou a imortalidade delicada e cruel de nuvens mandantes.
Promoveu a fragilidade e ocupou o que estava desabitado com um vago anúncio de voo.
Qualquer motivo de aborrecimento menor se torna apenas o que jamais deveria ter deixado de ter sido: um motivo de aborrecimento qualquer.

Hoje choveu e o sol apareceu.

Preguiçoso, mas apareceu.
A vaidade fica esquecida na gaveta de maquiagens.
Sombrio rajar verdejante, azul perfeito.
Por meio segundo a vida parece feliz e seu sorriso a única indizível emoção.
Escuta: - Existiu entendimento!
E tudo se (des) envolveu, pois quando amanheceu ela desvaneceu (mas não se esgotou!).
 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

o guerreiro descansa



"A falta de definição, por si só, define a vida. Tudo é transitório, nossas manias, nossos pensamentos, nossos amores, nossos pontos de vista. Sabemos quem somos e o que sentimos, mas não sabemos até quando. Estamos em trânsito, e a definição só virá quando não estivermos mais aqui para entendê-la."

(Martha Medeiros)

A vida nos prepara dolorosas surpresas. Sem conseguir evitar, chorei quando abri o livro da minha escritora preferida. Naquela página manchada por lágrimas. Um frio perigoso correu pela minha espinha. Senti o caminho tortuoso que o passado fazia para que finalmente, sentisse o coração em chamas. Senti o seu perfume ainda preservado por vários anos. Éramos tão diferentes em toda nossa estrutura. Não tínhamos o mesmo gosto musical e nem mesmo nossos sonhos eram semelhantes. O seu cartão de Natal, dobrado com delicadeza, se encontrava em duas folhas pregadas por um adesivo. Não sei bem por quê ele estava ali, mas desconfio que seja a divisão de um futuro e um passado. Passei os olhos pelo discreto bilhete rapidamente, na vontade de chegar onde estavam suas palavras apaixonadas. Eu detestava saber de antemão os seus sentimentos e os rumos de nossos destinos, mas eu sabia. Respirei fundo quando percebi que faltava pouco. Saber de algo que havia esquecido, na incerteza do próprio sentimento que corre alheio a qualquer forma de lógica e que mesmo assim te tortura e quase sempre se confirma e não deixa de ser uma forma excruciante de viver. Apenas os nossos nomes, juntos; era o que tinha desenhado. Você não era muito bom com palavras como era com os desenhos. Mas aquilo foi o suficiente pra mim. O peso. Corri os dedos pelos detalhes do papel e a tinta. As coisas são bem diferentes quando você guarda no peito um peso. Depois de contrariar as minhas fracas lembranças, me recordei das suas reações diante da minha euforia em abrir o presente. Aquele bilhete discreto - somente com duas palavras escritas por você - tinha o fardo da sua falta. Mas não só isso; despertava, o que por várias noites, uma parte minha que achava estar morta e enterrada com você.
    

quinta-feira, 5 de maio de 2011

o nada onde me tocas



"Eles desejam coisas que não existem. Eles não conhecem a paixão, nem tu. A tudo isso eu chamo tontura, não prazer. Evita a vertigem. Resseca, desbasta, o limite é a nudez do osso. Além dele, se avançares, há somente poeira. Mas cuidado, exigem-se os dentes fortes que Nanã perdeu. Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real."

(Caio Fernando Abreu)

Ontem eu vi o pôr do sol pela metade; o vidro estava embaçado. Então tentei de alguma forma voltar a ser o que eu era, mas tudo se mostra inútil.
Quantas lembranças atravessam nossos olhos no minuto entre a vidraça, a varanda e o prédio da frente. Era o nada. E desse nada fez-se tudo. E de tudo de desnudo faria-se... o nada novamente?
Quantas luzes transitam pelo nosso corpo quando o sol deita sobre as águas e a ponta da mesa é o melhor lugar de onde se pode olhar. Estava sozinha. Naquele lugar, naquela mesa, naquela cidade, naquele coração insidiosamente clichê que carrego.
Como um mês e meio pode virar uma eternidade?
A luz transitando pelos olhos. As lembranças permaneceram pela pele. Olhei quase sem querer para a frente, num desses gestos ínfimos que são capazes de mudar a vida de qualquer pessoa de pouca fé.
A mesa. O rio. O sol. Uma mão que me agarrou com força e arremessou para o passado.