Mostrando postagens com marcador ciclos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ciclos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Amanhã e depois e depois e depois e...





"Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa... E que interessa o castigo ou o prêmio?... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte."



(Lygia Fagundes Telles)



Mas se é desse jeito, o que você pensa em fazer? Me esconder em filmes antigos, em conversas antigas e uma dúzia de clichés. Sim. Tem mesmo aqueles dias em que saber e não poder ignorar me dói tanto que só eu sei. Conhecer o próprio erro e ter a lenta convicção de que é muito complicado mudar. Complicado, mas fundamental. Engraçado, sei exatamente o que devo fazer. Exatamente. Isso consegue me deixar eufórica às vezes, porém não me afasta da minha apatia, at all. Que já dizia Clarice, não entender é vasto, e viver ultrapassa todo entendimento. Falam bastante em mudanças, será que quando elas se mostram todos de fato conseguem fazê-las acontecer? Ou permanecem tranquilos, se perguntando se é isso realmente? Ou se disfarçam, felizes, no que restou do modo de viver de antes? O que fazem com as cicatrizes de outras pessoas?

O que elas, todas essas pessoas, fazem?




sexta-feira, 26 de agosto de 2011

misturas efêmeras





Lá é impossível se perder. Lá as pessoas não te recebem sorrindo, nem as crianças te seguem em suas bicicletas, quando você chega na cidade. Vai saber por que.
Lá as ruas e as praças não são tão bonitas e você jamais achará uma pessoa no supermercado que te ajude a decidir entre um desinfetante de lavanda ou de jasmim e, nem mesmo, uma pessoa que te desenhe um criativo mapa completamente encantador dos lugares que você deve visitar. E de nenhum outro jeito.
Nada acontece lá. São os mesmos lugares, os mesmos rostos, o mesmo cheiro e o mesmo silêncio. Que não tem outro jeito.
Lá é o contrário daqueles locais onde tudo acontece. Ou acontece e eu é que desconheça.
Em lugares onde tudo acontece, nada dura. Ao som de ruídos e músicas estranhas, as coisas não permanecem. É sempre assim, sempre. Isto ou aquilo e nem sempre se pode ficar tranquilo. Difícil é encontrar um mesmo rosto, um mesmo cheiro. São sempre novas pessoas. Novos ares e aromas.
A constante mesmice me irrita. A constante mudança me cansa. Se é tudo ou nada, então estou cansada e irritada. Faço novas descobertas ao meu próprio respeito.
Foi desse jeito que aprendi a gostar das menores doses. Deixei de ser radical. Algumas confirmações. Novos riscos. Algumas boas surpresas.
Depois de bastante tempo cansada, eu vejo que, ficando exausta, eu tinha um lugar onde eu poderia descansar. E eu ficaria neste lugar até pouco antes de me irritar com a mesmice de lugares onde nada acontece. As chateações sairiam todas pela porta dos fundos. Depois eu retornaria para o caos e antes de cansar, voltaria para o silêncio. Antes de me irritar com o silêncio, eu retornaria para os rostos desconhecidos e os cheiros novos – lá eu permaneceria até pouco antes de cansar, pois depois eu voltaria para os antigos rostos e o velho conhecido cheiro do meu lugar. Enfim, absorvo apenas o que de melhor posso, embora acabo sempre por deixar escorrer entre os dedos algumas coisas, não é possível absorver tudo e também não é possível esquecer algumas coisas que me entristecem, que machucam.
O meu lugar é lá. E por mais que nada aconteça lá, eu sempre voltarei.

terça-feira, 5 de julho de 2011

os detalhes que atentam



Nasci numa primavera. Foram 13 horas até conseguir chegar ao mundo. Ganhei alguns presentes, mas o que eu mais gostei foi uma boneca de pano com os cabelos vermelhos, dada pelo meu avô, esta boneca ainda existe. Quando fiz 4 anos, ganhei outro presente do meu avô, um balanço sob uma mangueira que ficava no quintal de casa, lá era meu refúgio. Era onde brincava por horas com minha boneca de pano, chamada Beatriz. Sempre tive os cabelos curtos, até começar a escolher minhas roupas e meu corte de cabelo. Cresci. A casa começou a ficar pequena, mas um dia ficou grande de novo. Sofria muito por me questionarem por pensar demais, por me trancar no meu mundinho particular, mas eu não achava/acho isto errado.
Adoro uvas. Preciso vestir diariamente roupas escuras, apesar de gostar de roupas claras. Tenho preguiça de usar batom. Tem dias que só quero ficar na cama, ouvindo músicas. Filosofia, poesias, Carpinejar, Caio Fernando Abreu e Nietzsche. Uma coberta com 20 anos. Papéis, canetas, cartas. Distraio-me pegando uma rua qualquer. Andando consigo ter minhas melhores ideias e sempre acho que devo comprar um gravador. Curto, choro, vivo. Adoro ficar sozinha, mas tenho medo de ficar sozinha pra sempre. Suco de laranja. Empadão de frango. Aprendi a ter paciência. Fobia à aves, mas gosto de comer carne de aves. Adoro o sol e de olhar as estrelas à noite. Rock alternativo. Cerveja e cigarros. Batata frita. Olhar o pôr do sol. Tatuagens. Eternal Sunshine of the Spotless Mind e Elizabethtown. Coldplay. Massagem, carinho e ócio. Parede riscada. Inglês. Pará. Castanhal. O cheiro da primeira vez, perfumes, maquiagem, roupas novas, planos, viagens, romance, conquista, sedução, entrega, verdade. Bar do meio. Café com polenta da mamãe. Manter todas as coisas perto pra não esquecer quem sou.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

dois ponto cinco


☊ coisas da vida

"Lóri estava triste. Não era uma tristeza difícil. Era mais como uma tristeza de saudade. Ela estava só. Com a eternidade à sua frente e atrás dela. O humano é só. Ela quis retroceder. Mas sentia que era tarde demais: uma vez dado o primeiro passo este era irreversível, e empurrava-a para mais, mais, mais! O que quero, meu Deus. É que ela queria tudo."

(Clarice Lispector)

É isso, lógico. Como não havia pensado nisso antes? Acho que foram os gritos de desespero que calaram meus pensamentos e me tiraram a atenção. E essa semana mais um acontecimento triste. E fiquei aqui com meus botões - que não tenho - pensando sobre os caminhos e descaminhos da vida, sobre as idas e voltas do destino, sobre as escolhas que fazemos (ou não) e suas consequências. Uma velha conhecida, dos tempos do colégio, desistiu. Da vida, de tudo. De fazer e refazer caminhos. Deixou bilhete de adeus e teve seu ato de coragem. E assim desistiu. Tão silenciosamente, como se a vida pertencesse só a ela e a mais ninguém que a amava. Mas pertence, mas pertencia. A vida é cheia de encruzilhadas, eu sei. Sim, eu sei.

Fiquei espantada com a intensidade que essas decisões têm. Ninguém é obrigado a tomar decisões conscientes - sejam quais forem.

Não dá um certo medo quando essas coisas acontecem? De que possa acontecer com a gente também? Ninguém é obrigado a ir além do óbvio, do que é repetido por todos, da facilidade do caminho que todo o resto segue. Mesmo que seja uma atitude deliberada. Pois o traço que dividi o desejo da atitude em si é muito frágil. Não me acho mais capaz de tomar decisões do que qualquer outro. É preciso ter sempre alguém cuidando de você pra que não exceda esse traço em momentos de desespero. Sejam eles quais forem, porque os meus não são os únicos.

Agora, eu não sei. De um certo modo, me senti envergonhada por ter sido muito fraca ultimamente. Dias de sentimentos diversos e tão intensos. Ângulos diferentes. Tem pessoas com problemas bem maiores que os meus. E, ao mesmo tempo, percebi que talvez eu nem seja tão fraca quanto penso. A minha vida é mesmo um grande liquidificador de misturas efêmeras.

Percebi isso. Afinal, ainda não desisti.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

perdida em sonhos e realidade


☊ emptiness


"Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai. Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem. Sem lhes falares. "

(Cecília Meireles)

Enchente ou devastação?
Olho para frente e não vejo o que sobrou e nem onde ficou. Deveria, se pudesse.
Se importe não. Esta coisa de ter o caminho vazio deve ser o vento, balançando uma rede. Há tanta coisa para ser feita, não sobra espaço para essas futilidades tão... necessárias. O restante a gente inventa, desforra, arruma. Calma. Oxalá.

sábado, 30 de abril de 2011

do tempo que passa, das coisas que ficam


☊ unattainable

"Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos sim; esquecer-vos
Fora demais, não o fiz.
Tudo se arranca do seio,
- Amor, desejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz."

(Vicente de Carvalho)

Algumas coisas perderam a alegria, perderam sua beleza, seu espaço e desencantaram. Algumas pessoas perderam o lugar privilegiado, perderam o brilho e não conseguem mais produzir. Algumas fotos perderam a cor, perderam significados. Algumas lembranças perderam sua reluzência, perderam valor. Alguns pensamentos perderam a direção, perderam a razão. E por trás dos pensamentos, pessoas.

Eu fiquei sem nexo. Estou deixando de me amar. Lembrei de tanta coisa, uma por uma. Foi como viajar no tempo, só borboleteando entre memórias e sentires e carinhos e distâncias irremediáveis. Não sei mais o que perdi, mas tenho que ficar com os dois pés no chão. Eu tenho um sentimento por algumas pessoas que passaram pela minha vida que nem sei como nomear, talvez seja uma espécie de gratidão.

Preciso acreditar que eu não tenho culpa, mas fins de semana são tão cheios de melancolia, de nostalgia. Agora meu milagrezinho bateu na minha porta. E essas coisas, são poucas, mas tão intensas e de vez em quando bate uma saudade.

Por favor, apague a luz e feche a porta ao sair.

terça-feira, 12 de abril de 2011

it just hurts, that's all


☊ field of innocence

"Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará."

(Caio Fernando Abreu)


Todo mundo já perdeu alguma coisa bastante importante. Uma pessoa especial, um amigo, um avô, um amor. Para lidar com isso você precisa ser forte para suportar a dor e usar todas as suas chances de ser ouvido.
Perder é uma das coisas mais árduas do mundo, porque perdemos não só a pessoa especial, mas parece que um pouco da gente parte também, para sempre. Isso inclui seu sorriso, seu brilho e muito além.
É impossível pensar na nossa vida e no quanto tudo é passageiro quando uma pessoa importante morre. E vê-las partir, uma após outra.
Hoje eu pensei nisso. Na dor de uma amiga que perdeu o pai e logo em seguida, perdeu a mãe. Apenas aquele silêncio cego e indolor. O vazio profundo que é virar para o lado e não encontrar essas pessoas de uma vida toda. A morte é um espelho. Já tive perdas significativas na minha vida e todas essas ausências ainda doem muito. Mas tudo serve pra gente pensar se cada minuto que temos está sendo gasto como deve ser, mesmo com todos os transtornos que ao longo do dia temos, mesmo que tudo não esteja como tínhamos imaginado, será que estamos fazendo o nosso melhor? A morte e apenas ela, clara e limpa como um cristal.
Hoje foi um dia triste pra mim. E muitas questões ainda pairam por aqui. Nelas, a memória estava presente, preenchendo um espaço infinito de lembranças daqueles que me deram paz em uma vida de guerra. Por entre as saudades.



 

domingo, 10 de abril de 2011

me encontre



"Então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo - o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto."

(Antônio Prata)

E então a vida segue o seu caminho.
E nuvens já não são mais sinônimo de melancolia.
O tempo passa.
Firme como rocha, estável.
Flores se escondem para brotarem na próxima estação.
Solidão, frieza, covardia e medo.
A pureza da criança é espalhada;
Enquanto isso o velho pensa que não viu aqueles anos correrem.
Da grandeza dos pequenos gestos.
Em um dia a tristeza se aloja por dentro. Eia. No dia seguinte o sol derrama pelo horizonte.
Não morreu, no entanto.
Anda pelas folhinhas do calendário, insaciável por um momento de descanso imaginário.
A vida fica pequena se você não tem com quem dividir as suas besteiras.
Comemora teu aniversário. Carnaval. O Natal. Deveria comemorar o tempo todo.
Mas não era o tempo certo. Não existe lugar nem hora certa para dizer adeus.
Os ônibus podem ser lentos. Vazios ou cheios.
A parte mais interessante é aguardar por eles na parada. Sempre.
Os nossos caminhos se cruzam. E o teu corta com o dele e o dela.
Mas poucos de nós chegam ao fim da linha.
Pode-se constatar que os diferentes tons de adeus realmente significam algo;
Que na despedida pode-se prever a finitude dos encontros.
Aparecem outros tempos. Outras épocas. Novas cenas.
Além disso, o personagem serve-se do mesmo figurino.
O beijo de despedida não parece nem o ensaio do primeiro.
Alguém desfaz um sonho teu. Que outrem pode lhe restituir.
Quatro e meia, seis e quarenta e cinco, nove e cinquenta e seis, onze e vinte, meia noite
Ponteiros andam depressa. O dia surge tantas outras vezes. As águas é que não retornam mais.
Se fosse sol, se fosse rosa, se fosse inverno, se fosse outra?
Enquanto vê o que está acontecendo no mundo. E às vezes seu gesto é tão tênue que se coloca em esquecimento.
Mas eis que está.
E então a vida segue o seu caminho.
Existem pessoas fadadas a transformar o amor em algo belo por seus atos, por sua reciprocidade e delícia de tardes de sol e corpos nus.
Para a nossa sorte. Sempre.