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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Amanhã e depois e depois e depois e...





"Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa... E que interessa o castigo ou o prêmio?... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte."



(Lygia Fagundes Telles)



Mas se é desse jeito, o que você pensa em fazer? Me esconder em filmes antigos, em conversas antigas e uma dúzia de clichés. Sim. Tem mesmo aqueles dias em que saber e não poder ignorar me dói tanto que só eu sei. Conhecer o próprio erro e ter a lenta convicção de que é muito complicado mudar. Complicado, mas fundamental. Engraçado, sei exatamente o que devo fazer. Exatamente. Isso consegue me deixar eufórica às vezes, porém não me afasta da minha apatia, at all. Que já dizia Clarice, não entender é vasto, e viver ultrapassa todo entendimento. Falam bastante em mudanças, será que quando elas se mostram todos de fato conseguem fazê-las acontecer? Ou permanecem tranquilos, se perguntando se é isso realmente? Ou se disfarçam, felizes, no que restou do modo de viver de antes? O que fazem com as cicatrizes de outras pessoas?

O que elas, todas essas pessoas, fazem?




quarta-feira, 25 de maio de 2011

dois ponto cinco


☊ coisas da vida

"Lóri estava triste. Não era uma tristeza difícil. Era mais como uma tristeza de saudade. Ela estava só. Com a eternidade à sua frente e atrás dela. O humano é só. Ela quis retroceder. Mas sentia que era tarde demais: uma vez dado o primeiro passo este era irreversível, e empurrava-a para mais, mais, mais! O que quero, meu Deus. É que ela queria tudo."

(Clarice Lispector)

É isso, lógico. Como não havia pensado nisso antes? Acho que foram os gritos de desespero que calaram meus pensamentos e me tiraram a atenção. E essa semana mais um acontecimento triste. E fiquei aqui com meus botões - que não tenho - pensando sobre os caminhos e descaminhos da vida, sobre as idas e voltas do destino, sobre as escolhas que fazemos (ou não) e suas consequências. Uma velha conhecida, dos tempos do colégio, desistiu. Da vida, de tudo. De fazer e refazer caminhos. Deixou bilhete de adeus e teve seu ato de coragem. E assim desistiu. Tão silenciosamente, como se a vida pertencesse só a ela e a mais ninguém que a amava. Mas pertence, mas pertencia. A vida é cheia de encruzilhadas, eu sei. Sim, eu sei.

Fiquei espantada com a intensidade que essas decisões têm. Ninguém é obrigado a tomar decisões conscientes - sejam quais forem.

Não dá um certo medo quando essas coisas acontecem? De que possa acontecer com a gente também? Ninguém é obrigado a ir além do óbvio, do que é repetido por todos, da facilidade do caminho que todo o resto segue. Mesmo que seja uma atitude deliberada. Pois o traço que dividi o desejo da atitude em si é muito frágil. Não me acho mais capaz de tomar decisões do que qualquer outro. É preciso ter sempre alguém cuidando de você pra que não exceda esse traço em momentos de desespero. Sejam eles quais forem, porque os meus não são os únicos.

Agora, eu não sei. De um certo modo, me senti envergonhada por ter sido muito fraca ultimamente. Dias de sentimentos diversos e tão intensos. Ângulos diferentes. Tem pessoas com problemas bem maiores que os meus. E, ao mesmo tempo, percebi que talvez eu nem seja tão fraca quanto penso. A minha vida é mesmo um grande liquidificador de misturas efêmeras.

Percebi isso. Afinal, ainda não desisti.

terça-feira, 26 de abril de 2011

calendário


☊ sleep well, my angel

"Esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo sem falar, e eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite (e da vida) que enfim alguém havia me reconhecido: eu era sim uma rosa."

(Clarice Lispector)

- Sento, encosto a cabeça e me esqueço.
- E depois, o que acontece?
- Fico ouvindo o mundo bem longe. Se eu fechar meus olhos lentamente, sei que consigo sentir de novo.
- Onde termina?
- Bem ali. Onde o sol se esconde. Fico aqui pensando em coisas que passaram... Consegue ver?
- Estou vendo. Eu gosto de pensar em coisas práticas. O sol adormece?
- Sim. A noite aquece. E eu tento não me importar muito com as coisas que sinto.
- Jura?
- O quê?
- Que daqui vou ouvir o mundo?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

não quero mais a realidade comum



Seja bem vindo à época de 'jamais aposte muito em alguma coisa que não lhe é proveitosa'; hoje vivemos a era das quimeras, do amor nosso de cada fim de semana, da falta de esperança das pessoas. Amores são sempre possíveis, sim.
É fato que o universo é justamente em torno do umbigo de cada um, que vive
do seu jeito e desempenha aquilo que é melhor para si.
Mas enfim, pra que imaginar em causar alguma coisa pra alguém?
Pra que é favorável ou foi favorável o favor? A alternância? Nessas noites sem álcool, os dias ficam muito mais estranhos de se entender.
Sendo agora mais específica...
Vejo com admiração minha falta de capacidade. A minha teimosia em ser aprazível, em ser prudente, em ser boba, desagradável, insignificante. Porque o que sinto hoje me é esquisito e não me cabe, já não escrevo; vomito palavras que ardem para sair.
Procurar ver o que várias pessoas não veem, procurar satisfazer uma coisa que não me satisfaz. Nesses dias sem álcool, conclusões me transtornam a cabeça, meus textos me destroem involuntariamente, insignificantemente a linearidade do cotidiano.
Ainda que pra alguns seja complicado ceder, eu acendo gentileza, trago a felicidade e aproveito a vagabundagem da melancolia... como um último cigarro.  

"Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."

(Clarice Lispector)
 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

se você soubesse...



"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas está morta e não sabe, ou está viva com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."

(Clarice Lispector)

 
Queria estar morta nesse instante, hoje.
O dia que eu sempre esqueço de forma consciente.
Pelo menos o suficiente.
Sempre finjo ignorar as lembranças alheias.
Tanto faz.
Tudo seria mais fácil... disso eu tenho certeza.
Não me causaria culpa.
Tudo de ruim que passei tenho certeza que não aconteceria, você nunca deixaria, não você.
Nenhum pouco!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

o velho mal da saudade



"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

(Clarice Lispector)

Por que as pessoas se mostram bastante notáveis quando estão no mundo das fantasias, contudo, é suficiente um pouquinho de realidade pra gente já se magoar? E por que eu ainda fico surpresa com esse tipo de coisa se não é a primeira nem a segunda vez que acontece? Não faz sentido. Não consegui determinar ainda se é uma virtude ou uma imperfeição moral acreditar, sonhar e aguardar sempre o mais conveniente… a hipocrisia vigia a porta. Se por um lado é mais provável se magoar, por outro, às vezes, acontecem alguns prazeres inesperados e penso que é devido a isso que eu jamais deixo de ter esperança e sigo sempre a aguardar o mais conveniente, pois eu sempre faço o meu melhor. Manias e atitudes. Enfim, isso é o que vale… 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

borboletas no estômago



"Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és. E sou assombrado pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever — mas sou obrigado a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço."

(Clarice Lispector)


Ela que ama sem conhecer. Que tem consciência de ser amada, só não está certa por quem. Que ele aceite esse sentimento de forma tão machucada e falsa, sem nunca conversar a respeito. Ela que sonha, ainda, achá-lo em qualquer lugar. Ela também não tem a mínima ideia de onde ele está ou do que sente. Ela que é espreitada de longe por quem ela ama, mas não tem iniciativa para conseguir tê-la. Se a quer por perto ou a uma distância segura. Ela que é linda, que se ama, que deseja amá-lo. Mesmo que ele saiba de tudo isso, mesmo que ele ria de tudo isso. Já falaram que ela tem olhos de vírgula, parecidos com uma clave de fá. Jamais terá seus olhos traçados de um jeito tão normal-anormal. Ela é séria demais para admitir para si mesma que não sabe amar. Ela que não quer nada de mais, telefonemas no meio da noite, sorvetes no domingo à tarde, filmes sábado à noite, colo na tristeza, abraço inesperado e intenso. Tempo de calar. Sorriso sincero ao vê-lo. 

domingo, 26 de dezembro de 2010

solidão acompanhada



"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto -uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir."


(Clarice Lispector)


Saudade. Afirmam ser uma palavra presente somente no vocabulário brasileiro.
Calma. A palavra pode até não possuir o mesmo significado quando se cruza as linhas imaginárias determinadas pelos homens, mas o sentimento transpõe qualquer limite e se aloja em qualquer coração, embebe em qualquer alma que conhece o real sentido da dor. Aquelas pequenas mágoas que você junta e depois usa de álibi se, na calada da noite, começa a se culpar por ser assim tão ruim em manter qualquer tipo de relacionamento.   
Possuo tantas saudades; pessoas que estão enlaçadas em fases da minha vida, gostos que não ficaram conservados pelo sabor, perfumes que desapareceram, abraços enérgicos que perderam o entusiasmo, porém a saudade que mais me dói é a que está evidente em tudo. É um toque maldoso e irônico de Deus (quem sabe?), mas algumas pessoas ficam tão bonitas quando tristes. Não tem jeito, tudo me lembra você.