quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

quero meus dias no mundo





"Constituir um ser humano, um NÓS, é trabalho que não dá férias, nem concede descanso: haverá paredes frágeis, cálculos malfeitos, rachaduras. Mas se abrirão também janelas para o sol. O que se produzir - casa habitável ou ruína estéril - será a soma do que pensaram e pensamos de nós, do quanto nos amaram e nos amamos, do que fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar isso."



(Lya Luft)


As coisas estariam bem mais fáceis se eu não te visse em cada detalhe desse recente passado.
E estariam bem mais fáceis ainda se não fosse só por sua causa que eu conduzo à força esse desmedido estudo, que comecei apenas pra te mostrar que eu tinha capacidade.
Tentei me esquivar de tudo que me interessava e assim eu pudesse continuar nesse mundinho de fantasias.

Não, eu não sou capaz.
Nem sou inteligente.
Nem sou mais seu motivo de apreço.
Mas sei que tenho potencial para ir muito além, afinal não preciso mais me esconder atrás de nada para obter a minha felicidade.

Gostaria de jamais ter me interessado pelos mesmos assuntos que você.
Eles nunca me pertenceram.
E se nesse momento eles aparentam ser inúteis e sem sucessão no meu mundo é porque meu valor por eles se desfez (do mesmo jeito como eu te vi desaparecendo).
Está sendo difícil e a tendência é piorar, mas sei que vou conseguir colocar na minha cabeça que posso ser feliz de outra forma.

E agora que você se foi de verdade, eu preciso me livrar dessa quimera.
Já que é um fardo enorme.
Não preciso sofrer para ficar bem em pequenas porções. Não preciso que outras pessoas sofram para que eu fique bem.

E esse peso tão constante até o fim e que o fim seja logo. É meu desejo para 2012.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Amanhã e depois e depois e depois e...





"Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa... E que interessa o castigo ou o prêmio?... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte."



(Lygia Fagundes Telles)



Mas se é desse jeito, o que você pensa em fazer? Me esconder em filmes antigos, em conversas antigas e uma dúzia de clichés. Sim. Tem mesmo aqueles dias em que saber e não poder ignorar me dói tanto que só eu sei. Conhecer o próprio erro e ter a lenta convicção de que é muito complicado mudar. Complicado, mas fundamental. Engraçado, sei exatamente o que devo fazer. Exatamente. Isso consegue me deixar eufórica às vezes, porém não me afasta da minha apatia, at all. Que já dizia Clarice, não entender é vasto, e viver ultrapassa todo entendimento. Falam bastante em mudanças, será que quando elas se mostram todos de fato conseguem fazê-las acontecer? Ou permanecem tranquilos, se perguntando se é isso realmente? Ou se disfarçam, felizes, no que restou do modo de viver de antes? O que fazem com as cicatrizes de outras pessoas?

O que elas, todas essas pessoas, fazem?




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

(a)fundo





"Minha lâmpada de cabeceira está estragada. Não sei o que é, não entendo dessas coisas. Ela acende e, sem a gente esperar, apaga. Depois acende de novo, para em seguida tornar a apagar. Me sinto igual a ela: também só acendo de vez em quando, sem ninguém esperar, sem motivo aparente. Para a lâmpada pode-se chamar um eletricista. Ele dará um jeito, mexerá nos fios e em breve ela voltará a ser normal, previsível. Mas e eu? Quem desvendará meu interior para consertar meus defeitos?"


(Caio Fernando Abreu)

O "pouco" sempre me preocupou. Pode até parecer pretensioso da minha parte, mas eu não trocaria nenhum ponto na minha maneira de ver a vida. Eu sempre fui assim, bicho complexo e cheio de reentrâncias.

Quando falo da palavra “pouco”, não me refiro aos bens materiais ou façanhas que estão longe do meu próprio desejo, mas a comportamentos que felizmente não estão em liquidação e apenas acontecem mediante a minha vontade. Nunca me permiti viver as coisas na superfície, a passeio.

Não pretendo inventar explicações pra todos os meus atos, desejo a solução para conseguir o que busco.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

impiedade






Pegue este poema e beba dele uma amarga dose que entre vários suspiros e desgostos me fizeram recordar que um dia te amei. Mas o tempo é o grande rei, me fez ver com olhos sem vida um sentimento que se omitiu e agora te vejo longe daqui deixado entre incertezas, saudades e desenganos, cantando nos botecos o lamento dos homens esquecidos.


Escrito em 08 de setembro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

tudo parece certo...





É nervoso que se entra no mar pela primeira vez. É com receio. É com aquele incômodo leve que é quase incontrolável, que se entra prendendo a respiração, no mar. São pequenas coisas como essa que fazem essa vida maluca acabar, no final das contas, valendo a pena. Sem entender as inocentes sensações. Pela  inesquecível e assustadora  primeira vez. E, se nós formos pessoas de sorte, vai ser desse jeito, sempre.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

dança comigo




"Leve o tempo que precisar para sarar, mas não esqueça de um dia compartilhar o seu coração com outra pessoa."

(Elizabeth Gilbert em: Comer, Rezar, Amar)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

?




Parece que eu sempre estava certa de quem eu era e o que eu precisava. Precisava viver. Muito frio na barriga quando as borboletas fazem festas; precisava ser feliz, como eu sempre costumava dizer quando estava de malas prontas para os dias mais ensolarados e coloridos do ano. Fácil, sou uma pessoa simples. Adoro rir, ler, tomar sorvete, praia. De alma antiga, gosto de saber de coisas que já perderam a sua importância, como aquele cheiro da naftalina. Traduzir-me. Contente, ou melhor: feliz. E, um dia, você. Fiquei ainda mais feliz, mas já não estou certa de várias coisas que tinha como seguras. Em algum ponto do caminho me perdi do porquê da caminhada. Já não estou muito certa de quem sou, a não ser quando estou certa de que sou quem te ama. Já não estou muito certa do que quero, a não ser do que inclua nós dois, dentaduras e cadeiras de balanço. Rendo-me. Revelo coisas divertidas sobre mim: que consigo ter esperanças, que choro de saudade, que sou ciumenta e grudo como um carrapato. Sem pensar muito a respeito, reduzo a marcha, paro sem aviso e sento-me à beira. E descubro coisas divertidas sobre mim que você me diz: que falo de um jeito elegante, que respeito seu espaço e tempo, que sou ciumenta e grudo como um carrapato. Talvez por isso tenha começado a caminhada. Do nada, já não estou tão velha, sinto ímpetos juvenis, adolescentes, decrépitos. Tenho gostado cada vez mais dos novos barulhos e trilhas sonoras dos meus dias. Não gosto de me afastar de você. Perco minhas novas alusões e já não posso me restringir às antigas. Novos sorrisos, elogios e motivos de felicidade, talvez instantânea, talvez duradoura. Gosto de ser quem sou quando estou com você. Gosto de quem você é quando está comigo. Arrepios pelo corpo, encontros inesperados e um único e mesmo desejo. Sinto-me feliz de estar certa de que amo um homem que é como é o pouco que seja por causa de mim. Estar junto, dar risada, bater papo, trocar ideia, falar sério e falar bobagem, apoiar e ser apoiada. Gosto e desejo ser a mulher que você gosta de amar. Desejo te encontrar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

uma oração





Venha cá, meu menino, quero fazer com que essa dor seja curada com toneladas e toneladas desse amor que ainda tenho por ti.
Quero-te um bem enorme, quero-te forte e bem, pois você é alegria na vida das pessoas e, pessoas como você, devem ter um pouquinho de um presente especial reservado em algum lugar que ainda não sei qual é, mas que é bem bonito. E eu sei também que você tem uma estrela na cartola e consegue num piscar de olhos fazer a tristeza virar alegria e a fraqueza virar fortaleza. O bem e o amor tem que propagar, menino e vai ser por nossas mãos!
Menino, perdoe a minha falta, é que as coisas por aqui andam muito apavorante. Mas ando nos teus quintais, velando teus sonos durante as minhas madrugadas insones e sinto também, mesmo do lado de cá, como você não anda bem, que as dores também são muitas. Te quero todo inteiro pra eu poder ficar inteira também! Penso sempre em ti! E te desejo todo o bem com a mesma força que antes! 
Infelizmente, penso que o Senhor Caio F. Abreu não tinha razão quando disse que 'as dores são cada vez mais rapidamente superadas'. As dores são cada vez mais intensas e as covardias são tantas. Covardia afetiva, meu menino, eis a questão. As pessoas acham estranho se doar, acham estranho qualquer tipo de gostar. E optam pelo que é passageiro ao eterno e imutável. Eu, não! Insisto no que é belo, mesmo sabendo que ele nos machuca os olhos e a alma. Ai, menino, como você merece o melhor! E queria te abraçar e roubar toda essa dor pra mim, pra te ver de novo do jeito que gosto de te ver, cheio de vida.

Te deixo um sorriso, um afago e um beijo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

misturas efêmeras





Lá é impossível se perder. Lá as pessoas não te recebem sorrindo, nem as crianças te seguem em suas bicicletas, quando você chega na cidade. Vai saber por que.
Lá as ruas e as praças não são tão bonitas e você jamais achará uma pessoa no supermercado que te ajude a decidir entre um desinfetante de lavanda ou de jasmim e, nem mesmo, uma pessoa que te desenhe um criativo mapa completamente encantador dos lugares que você deve visitar. E de nenhum outro jeito.
Nada acontece lá. São os mesmos lugares, os mesmos rostos, o mesmo cheiro e o mesmo silêncio. Que não tem outro jeito.
Lá é o contrário daqueles locais onde tudo acontece. Ou acontece e eu é que desconheça.
Em lugares onde tudo acontece, nada dura. Ao som de ruídos e músicas estranhas, as coisas não permanecem. É sempre assim, sempre. Isto ou aquilo e nem sempre se pode ficar tranquilo. Difícil é encontrar um mesmo rosto, um mesmo cheiro. São sempre novas pessoas. Novos ares e aromas.
A constante mesmice me irrita. A constante mudança me cansa. Se é tudo ou nada, então estou cansada e irritada. Faço novas descobertas ao meu próprio respeito.
Foi desse jeito que aprendi a gostar das menores doses. Deixei de ser radical. Algumas confirmações. Novos riscos. Algumas boas surpresas.
Depois de bastante tempo cansada, eu vejo que, ficando exausta, eu tinha um lugar onde eu poderia descansar. E eu ficaria neste lugar até pouco antes de me irritar com a mesmice de lugares onde nada acontece. As chateações sairiam todas pela porta dos fundos. Depois eu retornaria para o caos e antes de cansar, voltaria para o silêncio. Antes de me irritar com o silêncio, eu retornaria para os rostos desconhecidos e os cheiros novos – lá eu permaneceria até pouco antes de cansar, pois depois eu voltaria para os antigos rostos e o velho conhecido cheiro do meu lugar. Enfim, absorvo apenas o que de melhor posso, embora acabo sempre por deixar escorrer entre os dedos algumas coisas, não é possível absorver tudo e também não é possível esquecer algumas coisas que me entristecem, que machucam.
O meu lugar é lá. E por mais que nada aconteça lá, eu sempre voltarei.

domingo, 21 de agosto de 2011

Essa forte doçura




Quando escuto aquele célebre clichê que atinge a vida como um filme de sessão da tarde com alguma lição de moral, invariavelmente minha mente cria outro raciocínio. Olho quase sem querer pra frente, num desses gestos ínfimos que são capazes de mudar a vida de qualquer pessoa de pouca fé. Vejo uma pessoa digna de todo crédito como um confronto entre nossa vida e um livro biográfico. Nesses momentos, penso em Godard pra delírio dos mais piedosos e decadentes leitores. À proporção que se ganha experiência, este trabalho difícil de ser compreendido, segue-se enriquecendo de palavras ilusórias, de fatos transformados em verbos. Mesmo com a rotina impondo encontros diários entre personagens. Contudo, a cada novo dia, um novo capítulo é acrescentado a esta obra. Este excelente trabalho, todavia, não admite ser editado. E a vida continua, sem sentido algum. Não permite que seja modificada ou revisada. E só. Terminando-se o total de páginas escritas, cada obra tem seu tempo entre o começo e o fim, vai como achar às prateleiras, onde é examinada pelos consumidores. Essa doçura forte. Se parecer aprazível, com frases e tempos decorridos sobre uma vida completa, enérgica e aproveitável, muita gente compra e lê. Se for desagradável, não tendo algo que incremente o próprio livro daquele que lê, as traças se tornam suas companheiras inseparáveis. Eu passei um certo tempo achando que tinha que mudar tudo no meu livro, deixar de ser tudo o que sou, pra poder ser forte – e mais do que isso, para poder provar aos outros a minha força. Na minha passagem por este mundo, tenho esperanças de poder escrever muita coisa que desperte interesses. Compreendo a marcha e vou tocando a frente, como diria o cantor. Meu livro, aspiração, deixando a modéstia de lado, que seja repleto de excertos de impacto, os quais suponho que deem ao futuro leitor aprendizado útil. Um caminho imenso, que é meu e não precisa ser mudado. Ainda estou no início, óbvio, mas já percorri vários livros, em várias estantes. E há outros tantos ainda a serem escritos. E vejo, também, que, infelizmente, há alguns livros que jamais serão vendidos, pelo mero fato de neles consistirem somente páginas em branco.

sábado, 13 de agosto de 2011

o começo de uma história sem fim





Ela desperta e nem mostra sinas que vive. Fica cansada e acaricia os cabelos num jeito de esgotar os pensamentos inquietos. É séria demais pra admitir pra si mesma que não sabe amar. Não cede ao sono tranquilo e põe-se de pé lentamente. E nem precisa.
Não aconteceu nada de novo. E de repente da mágoa se fez preguiça. Preguiça de tentar.
Inunda-se, então, de 
aflições e fobias. Arruma a mochila e apronta sua rotina. Anda pelas ruas como quem sai batendo portas e transportando nuvens escuras, que não tarda virar uma tempestade. Quem sabe algumas coisas já não caibam mais na sua vida, por mais que ela queira que caibam. Seus olhos vagueiam por entre as pessoas, os animais e os lugares. Tentando aceitar que as coisas mudam, que as pessoas mudam.
Os lábios, 
assíduos, clamam seu nome. Os letreiros bradam, em um conjunto de ideias levianas, seu nome e ela se satisfaz plenamente de si mesma. Parou de reclamar. Abriu mais os olhos e fechou a boca.
Recorda-se da sua penúria frente ao espelho, dos seus 'culotes' mal formados, seus ombros largos, suas coxas grossas, busto pequeno e braços frágeis. Estava acostumada a estar só, flutuando numa existência tão ridícula quanto as desculpas que dava pra si mesma pra permanecer nesse estado. Fizeram-lhe em tudo vaga, mas deram-lhe dois olhos e equilibraram todos os seus estorvos. Olhos que percebem. Olhos de olhares frágeis. Cansada de olhar pra baixo. Ela e seus olhos míopes.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

"Gosto das tuas notícias e do teu feeling"




Mais que amar é te acordar com um beijo, ao som de Make you feel my love.
Não saber como lidar contigo. Não saber como dizer que te amo de uma maneira que não pareça completamente estúpida ou completamente fraca.
Dormir à tarde quando a gente sentir vontade.
Te beijar e depois te bater.
Devorar todas as empadas e colocar à mesa o desejo.
Dizer tantas coisas que te façam duvidar de qualquer um dos meus sentimentos.
Acordar na madrugada e te proteger do frio.
E mostrar durante o dia compartilhado o presente que é ficar ao teu lado.
Te querer por perto ou a uma distância segura.
É mais que amor.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

encontre-me no caminho


☊ light me up 



"Eu gosto de viver. Já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas através de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar viva é sensacional."

(Agatha Christie)



Sorte a minha que conheço pessoas que evitam a mesmice e desafiam a vida, as crenças, os medos e excedem o limite do divino. A isso eu nomeio como coragem e é a respeito dessas coisas que eu desejo modelar o meu caminho. Vou devagar, olhando por todos os lados. Ousadia. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

auto-sabotagem


☊ history 


"Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias demências e tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto."

(Martha Medeiros)



Só existe chance de sentir a dor.
Ela e apenas ela, clara e limpa como um cristal.
Cruel, pulsante, torturante; somente a ela devo cobiçar.
Nela, a memória está presente, preenchendo um espaço infinito de lembranças daqueles que me deram paz em uma vida de guerra.


- Salve-me do peso de não existir. Proteja-me dessa tortura.


Seja grandioso em tua existência, frágil, discordante; corte minhas veias e deixe jorrar, diáfano, minha constante desordem.
Para que a escuridão do futuro não tenha importância, pois já tive tudo que poderia querer e querer mais seria apenas ganância.


- Minha fantasia de santificação e tormento! Se eu fechar meus olhos lentamente, sei que posso te sentir.


Sublimes os que te possuem como martírio.
Lembrei-me da solidão que tanto me avisaste.
Somente tu compreendes o meu viver.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

uma personagem sem nome




"Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:
- Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores. Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos. Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconserto nosso. Com medo de ver quem - ou o que - somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras."


(Lya Luft)

Ela fez um pedido na noite passada, justamente quando uma estrela cadente decidiu passear. E olhem só: A certeza veio! Algo que a devolveu a vontade de ser humano. O céu jamais esteve tão repleto de estrelas. O céu a deu respostas e de lá saiu caminhando em nuvens. O céu conspirou em favor ao desejo da moça, pela primeira vez o céu fez um sinal positivo. Então foi assim. A moça foi depressa falar pra mãe sobre a maravilha que é a vida. E achando injusto o que tinha feito ao longo de toda vida, retirou da caixinha as estrelas que colecionava em segredo e as colocou por perto. Ela foi tudo o que se tornou. Em cada estrela, um amor em sua vida. Para que coloquem suas estrelas, para que recolham seus amores. Mas pra isso, é necessário acreditar! Acreditar nas estrelas e especialmente nos amores.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

vespasiana


☊ give me a sign 


Mãos transpiram, olhos arregalados, coração acelerado, pernas agitadas, sensações de quem está apaixonado. Ou então está a ponto de um infarto. De qualquer modo aplica-se a um mal do coração. Como é chato não passar por nada disso. Não ter a quem amar, em quem ficar pensando durante os momentos de ócio do dia, com quem sonhar, para dedicar cada palavra mal rimada, como é ruim precisar conter todo o sentimento oculto em qualquer cantinho dessa vida quase desprezível que vivo. Não parece terrivelmente injusto? Empurrar pro cantinho pra não acabar dando a quem não é merecedor ou indo dissipá-lo todo com as ofensas e mágoas e lembranças ruins. Porque quando a gente ama, o passado fica muito longe e as possibilidades de futuro se apresentam como única forma de salvação. Não sei se fico mais fraca quando amo ou quando não amo. Às vezes me sinto tranquila, simulacro de um real coração, orgânico, só músculo a pulsar. Amar é benéfico mesmo quando dói? Existe curativo para um coração que teima em se machucar, mesmo sem ter motivo? Existe calma para um bater incessante de asas que seca a garganta? Existe remédio para ferimentos que não se curam apesar do tempo que passou? Existe remédio ou muletas para apenas existir? Existe solução para quem ama, mas está sempre só?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

complicated shadows


"A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito?"


(Caio Fernando Abreu)




Quem me dera viver nas nuvens. Porque é onde moram meus pensamentos. E a minha cabeça é aquela velha e cansada máquina que nunca sossega. E lá é mais perto de Deus. Tentar me deixar levar por um momento, como se nada fosse. Observar tudo do alto. Ver meus problemas menores. Alterar minha percepção de vida. Olhar o mundo pequeno. Meus temores tão notáveis quanto uma formiga. A visão otimizada e falsa de tal altitude. Numa altura onde até a minha saudade fique pequenina. Nada de interação ou questionamento, só aceitação. Ficaria maior. Enorme e superior. Como pode tanta coisa mudar, se ainda sinto o mesmo? Preciso manter o equilíbrio. Quero me harmonizar.

terça-feira, 12 de julho de 2011

fascismo emocional


☊ save you 



"Ele pintava no céu as cores de sua imaginação. Desenhava nuvens de chuva em espera, guardada para aqueles momentos mágicos de sorrisos que se tocam. Eles gostavam da chuva, de nuvens e cores e da felicidade boba feita de pequenos momentos eternos."

(Regis Falcão)



Por que depois de bastante tempo eu ainda quero uma pessoa bem parecida com você? Será querer demais? Uma pessoa que me faça sorrir até mesmo em momentos ruins. Que não ame o amor. Que me inspire desejos de fazer coisas que jamais tive coragem de fazer e me mostre novos jeitos de enfrentar a vida. Que me ache bonita, mesmo se eu estiver chorando. Que me leve aos lugares mais excitantes. Que me ofereça os sabores mais extravagantes, as vontades mais loucas. Que me coloque num pedestal e logo depois me tire, quando a gente brigar. Por que mesmo conhecendo todo seu pior lado, só penso no seu melhor lado? Porque você me viu como eu sou, gostou de mim pelo o que eu sou, não pelo papel que eu desempenhei na sua vida. Aquele colo tão confortável se despedaçou em várias histórias idealizadas. E nesse perfeito instante só não sou tão vazia, porque ainda me mantenho das sobras que vejo da sua vida. Mas, acima de tudo, enxergando isso. As fotos das suas viagens, suas novas companhias, seu novo estilo de cortar o cabelo. E te dizer que estou triste, estou com raiva, estou com um monte de coisa. Tudo, visivelmente tudo, exprime a sua felicidade que é compartilhada com outro alguém.

sábado, 9 de julho de 2011

"Apenas se ama, na tranquilidade de nada exigir em troca"


☊ love is noise 



"E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto."

(Caio Fernando Abreu)





O amado fragilizado, atirado sobre a cama, sonha com os olhos bem fechados.
Ele amava o lado obscuro dela, amava quando ela ficava brava, amava o que há de pior nela.
Não crê no fim da linha, não pode acreditar que tudo se desmanchou completamente.
Como dizer o que é preciso ser dito?
Apaixonados desde o primeiro momento - o dela.
Naquele tempo em que era tão bom não achar as respostas certas.
Cantarolava canções quando a levava ao trabalho.
Tinham sua falta de juízo, suas palavras, suas músicas e uma imaginação invejável.

Ah, querido, não permita que esses olhos fechados encerrem esse amor.
As centenas de caixas cheias de chocolate provam a grandeza dessa paixão: uma adolescência transparente.
Essa história está somente passando para a vida adulta.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

algo a mais


☊ mesmo sozinho 



Ontem eu sai na chuva.

Senti-me como provavelmente se sentiu Colombo ao descobrir a América – apesar de eu ter quase certeza que ele não sabia que tinha descoberto um continente desse tamanho.
Há bastante tempo que eu não fazia alguma coisa que me deixasse inocentemente feliz: tomar chuva.
Por isso, há beleza na solidão.
Apesar do frio e do vento congelante, lavei um pouco a minha alma.
Não podia continuar só a encenar a gloriosa felicidade.


Senti como se cada gota que caia fosse cada afeto que se dissipava.
Foram 15 minutos.
Ensopada; naquela tarde solitária.
Eram pensamentos que viraram ações.
Com minha alma fria; senti tocar cada pingo da chuva gelada.
Era felicidade sem razão.


Ontem eu sai na chuva.
Com a razão evaporada.
Com a alma lavada e fria.