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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

medo de errar



"Comecei a me preparar, acendendo o incenso de sândalo, arrumando sobre a cama as almofadas lilases, apagando a luz do canto, acendendo a da cabeceira, mais íntima, sob o lenço abissínio, para que me encontrem em paz e sintam-se perfeitamente à vontade nesta nuvem roxa suspensa que habito e que chamo às vezes, irônica, de 'meu mundo'."

(Caio Fernando Abreu)


Tive uma sensação como se duas mãos me cobrissem os olhos de um jeito muito rápido, antes mesmo que eu tivesse a chance de questionar quem era e do nada, foi apenas a urgência de sair imediatamente de casa e correr pra rua, sem estar certa pra que ponto exatamente. Preciso começar de onde parei e começar está se tornando algo difícil. Bater porta sabendo que vai voltar, insultar sabendo que o outro vai desculpar, fazer bobagens que irão irritar por bastante tempo. Fazer amor prazeroso depois disso tudo. Novas situações, novos cenários, novos dialetos. Nova forma de ver o mundo com os mesmos olhos, mas com outra visão. É o que se espera, mas nem sempre o corpo acompanha. Tudo tem sido um aprendizado. Tudo tem sido uma só certeza. Tive um dejavu canalha. Coração na boca, uma saudade sem fim e vontade de colo. Uma cumplicidade assustadora. E ter medo é minha obrigação e meu talento. Aquele abraço capaz de segurar o mundo é como se fosse a última melhor lembrança que pudesse ter na vida. O resto é apenas dor de cabeça de uma noite mal dormida.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

(a)fundo





"Minha lâmpada de cabeceira está estragada. Não sei o que é, não entendo dessas coisas. Ela acende e, sem a gente esperar, apaga. Depois acende de novo, para em seguida tornar a apagar. Me sinto igual a ela: também só acendo de vez em quando, sem ninguém esperar, sem motivo aparente. Para a lâmpada pode-se chamar um eletricista. Ele dará um jeito, mexerá nos fios e em breve ela voltará a ser normal, previsível. Mas e eu? Quem desvendará meu interior para consertar meus defeitos?"


(Caio Fernando Abreu)

O "pouco" sempre me preocupou. Pode até parecer pretensioso da minha parte, mas eu não trocaria nenhum ponto na minha maneira de ver a vida. Eu sempre fui assim, bicho complexo e cheio de reentrâncias.

Quando falo da palavra “pouco”, não me refiro aos bens materiais ou façanhas que estão longe do meu próprio desejo, mas a comportamentos que felizmente não estão em liquidação e apenas acontecem mediante a minha vontade. Nunca me permiti viver as coisas na superfície, a passeio.

Não pretendo inventar explicações pra todos os meus atos, desejo a solução para conseguir o que busco.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

o velho mal da saudade



"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

(Clarice Lispector)

Por que as pessoas se mostram bastante notáveis quando estão no mundo das fantasias, contudo, é suficiente um pouquinho de realidade pra gente já se magoar? E por que eu ainda fico surpresa com esse tipo de coisa se não é a primeira nem a segunda vez que acontece? Não faz sentido. Não consegui determinar ainda se é uma virtude ou uma imperfeição moral acreditar, sonhar e aguardar sempre o mais conveniente… a hipocrisia vigia a porta. Se por um lado é mais provável se magoar, por outro, às vezes, acontecem alguns prazeres inesperados e penso que é devido a isso que eu jamais deixo de ter esperança e sigo sempre a aguardar o mais conveniente, pois eu sempre faço o meu melhor. Manias e atitudes. Enfim, isso é o que vale…