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domingo, 5 de fevereiro de 2012

desesperança e solidão



"Valsando como valsa uma criança, que entra na roda.... A noite tá no fim
Ela valsando, só na madrugada, se julgando amada ao som dos Bandolins...
Ela teimou... e enfrentou o mundo, se rodopiando ao som dos bandolins..."

(Oswaldo Montenegro)

Preencho meu olhar com coisas tão artificiais, que por pouco não as vejo. E quando chega a noite, o sossego, a calma, a escuridão, é que vejo melhor. A mudança está acontecendo – como sempre acontece – aos poucos. Ao som do sono tranquilo da família, ao som da casa adormecida por inteira, no sossego dos sonhos, é que eu posso enxergar. Começou sutil e terminará avassaladora. O dia imenso, transparente, evidente, turbulento, me ilude. As coisas diminutas que vejo durante o dia me iludem. Nada mais. O extraordinário e belo eu consigo ver à noite, quando não existe nada mais para ser visto. Foram-se os sonhos, ficaram as dores. Meus olhos, bastante preenchidos com as insignificantes coisas, já estão quase desvanecidos.


sábado, 13 de agosto de 2011

o começo de uma história sem fim





Ela desperta e nem mostra sinas que vive. Fica cansada e acaricia os cabelos num jeito de esgotar os pensamentos inquietos. É séria demais pra admitir pra si mesma que não sabe amar. Não cede ao sono tranquilo e põe-se de pé lentamente. E nem precisa.
Não aconteceu nada de novo. E de repente da mágoa se fez preguiça. Preguiça de tentar.
Inunda-se, então, de 
aflições e fobias. Arruma a mochila e apronta sua rotina. Anda pelas ruas como quem sai batendo portas e transportando nuvens escuras, que não tarda virar uma tempestade. Quem sabe algumas coisas já não caibam mais na sua vida, por mais que ela queira que caibam. Seus olhos vagueiam por entre as pessoas, os animais e os lugares. Tentando aceitar que as coisas mudam, que as pessoas mudam.
Os lábios, 
assíduos, clamam seu nome. Os letreiros bradam, em um conjunto de ideias levianas, seu nome e ela se satisfaz plenamente de si mesma. Parou de reclamar. Abriu mais os olhos e fechou a boca.
Recorda-se da sua penúria frente ao espelho, dos seus 'culotes' mal formados, seus ombros largos, suas coxas grossas, busto pequeno e braços frágeis. Estava acostumada a estar só, flutuando numa existência tão ridícula quanto as desculpas que dava pra si mesma pra permanecer nesse estado. Fizeram-lhe em tudo vaga, mas deram-lhe dois olhos e equilibraram todos os seus estorvos. Olhos que percebem. Olhos de olhares frágeis. Cansada de olhar pra baixo. Ela e seus olhos míopes.

terça-feira, 26 de julho de 2011

auto-sabotagem


☊ history 


"Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias demências e tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto."

(Martha Medeiros)



Só existe chance de sentir a dor.
Ela e apenas ela, clara e limpa como um cristal.
Cruel, pulsante, torturante; somente a ela devo cobiçar.
Nela, a memória está presente, preenchendo um espaço infinito de lembranças daqueles que me deram paz em uma vida de guerra.


- Salve-me do peso de não existir. Proteja-me dessa tortura.


Seja grandioso em tua existência, frágil, discordante; corte minhas veias e deixe jorrar, diáfano, minha constante desordem.
Para que a escuridão do futuro não tenha importância, pois já tive tudo que poderia querer e querer mais seria apenas ganância.


- Minha fantasia de santificação e tormento! Se eu fechar meus olhos lentamente, sei que posso te sentir.


Sublimes os que te possuem como martírio.
Lembrei-me da solidão que tanto me avisaste.
Somente tu compreendes o meu viver.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

algo a mais


☊ mesmo sozinho 



Ontem eu sai na chuva.

Senti-me como provavelmente se sentiu Colombo ao descobrir a América – apesar de eu ter quase certeza que ele não sabia que tinha descoberto um continente desse tamanho.
Há bastante tempo que eu não fazia alguma coisa que me deixasse inocentemente feliz: tomar chuva.
Por isso, há beleza na solidão.
Apesar do frio e do vento congelante, lavei um pouco a minha alma.
Não podia continuar só a encenar a gloriosa felicidade.


Senti como se cada gota que caia fosse cada afeto que se dissipava.
Foram 15 minutos.
Ensopada; naquela tarde solitária.
Eram pensamentos que viraram ações.
Com minha alma fria; senti tocar cada pingo da chuva gelada.
Era felicidade sem razão.


Ontem eu sai na chuva.
Com a razão evaporada.
Com a alma lavada e fria.

terça-feira, 14 de junho de 2011

desapego


☊ meu vício agora


Estou vendendo a preço promocional meus fantasmas, medos, devaneios, meus mais assombrosos segredos. Vendo minhas inseguranças, meus fracassos e pesadelos.
Tudo com um ótimo desconto pra apreciadores da dor alheia. Algo estúpido e irracional que contém peso demais.
Aceito trocas apenas com os mesmos valores. Não ofereço garantias e não aceito devoluções. Obrigada!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

perdida em sonhos e realidade


☊ emptiness


"Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai. Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem. Sem lhes falares. "

(Cecília Meireles)

Enchente ou devastação?
Olho para frente e não vejo o que sobrou e nem onde ficou. Deveria, se pudesse.
Se importe não. Esta coisa de ter o caminho vazio deve ser o vento, balançando uma rede. Há tanta coisa para ser feita, não sobra espaço para essas futilidades tão... necessárias. O restante a gente inventa, desforra, arruma. Calma. Oxalá.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

aquela vontade de voltar


☊ soul to squeeze

"A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas... Mas não posso explicar a mim mesma."

(Lewis Carroll)

Era como se houvessem me acertado um soco no estômago. Não existia remédio que curasse essa dor. Tudo iria desmoronar em cima do meu corpo frágil e o chão se romperia e me sugaria por completa. Me peguei me torturando de novo. Mas só vi que era tortura quando voltei ao presente, durante a maior parte do tempo foi uma espécie de saudade. Em alguns segundos eu seria rebaixada à nada. Mas tive o impulso de abaixar a cabeça e o sangue voltou aos vasos e veias. E por fim, pude me sentir aliviada.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

extremos da paixão




"Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso."

(Caio Fernando Abreu)

Proferi lentamente as letras do seu nome, um sorriso se alastrava pelo meu rosto, desmanchando-se em um delicado som doce, atirado para as nuvens que me observavam vistosamente.
Eram várias as vezes que deparara com tal situação.
Era simples te achar, mesmo que sua ausência fosse desmedida eu conseguia tocá-lo em meus devaneios.
O coração é algo engraçado, não é?
Sim. O céu sorria em minha direção, talvez eu conseguisse chegar até ele se todo esse encanto conseguisse me fazer flutuar.
Nem sei expressar com palavras o que estou sentindo, talvez elas não bastem, pois sempre existe algo que não consigo dizer.
Procurei não saber da sua existência em meus pensamentos, mas o desejo de senti-lo perto abarcava qualquer lugar na minha mente.
Está tudo tão confuso que nem sei o que pensar. Na verdade eu sei.
Fecho os olhos e consigo fantasiar, idealizo sua boca e desvendo seu gosto de uísque e licor.
Bem intenso às minhas lembranças, me embriago desse sabor que me atravessa rapidamente a alma.
É tão forte e tão suave esse teu beijo.
Até quando ficarei sem teu carinho, sem poder sentir suas mãos?
Me esqueço em meus devaneios e sei que não sou tua.
Sinto seu cheiro ao me abraçar, suas mãos quentes me tocando.
Possuo você por completo, aqui dentro de mim.
Sua pele roçando na minha, seus dedos deslizando no meu corpo, sua boca beijando meus lábios.
Imagino as palpitações do seu coração tão desproporcionais junto ao meu.
Minhas mãos percorrendo seu corpo, deslizando em cada centímetro teu.
Seu fôlego arranca-me o ar.
Nossos corpos se enlaçando, saciando nosso desejo.
O seu perfume ocupa todas as moléculas de minha pele.
Injustiças.
Satisfaz-me um beijo seu, satisfaz-me um som doce.
Coisa de cheiro, pele e química.
Um suave sabor de chocolate e laranja, que permanece grudado em mim.
Compatibilidade.
Eu necessito ficar envolvida em seus braços para me permanecer completa.
E quando a sua voz chega aos meus ouvidos eu vou até o céu.
Como o encaixe perfeito.
Eu escuto suas risadas, percebo o seu sabor descansando em minha boca, consumindo lágrimas, restaurando esperanças.
Você não chegou a conhecer algumas das minhas alegrias mais inocentes.
Eu sonho acordada pra me guiar até você.
Sonhos não deveriam estar ao alcance de todos.
Estendo meu corpo sob a chuva.
”Por que chove tanto e você não vem?”
Faço rabiscos de um pôr do sol entre nuvens de algodão, desprezo o vento...
E furto teu coração.