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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Tudo muda o tempo todo no mundo



"...tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno veneno ..."

(Caio Fernando Abreu)

Um dia as coisas ficam pela estrada: roupas, camas, beijos, amassos.
O lugar-comum.
A estrada foi aumentando-se com o passar do tempo e aquelas coisas que pareciam infinitas tornaram-se ocultas.
Fraqueza.
Os chinelos esquecidos em lugares mais exclusos.
A dor, a intensidade e o fogo.
A boca suja de sangue nem encobre o batom cor de vinho.
E de nenhum outro jeito.
Não há mais indícios.
Sem vozes alheias nem julgamentos externos.O que restou foi um ar quieto e áspero; um nó na garganta e o beijo de outros tempos.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Limite




"E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam - e queimar também destrói."
(Caio Fernando Abreu)


Parou então para pensar o que ele tinha vindo fazer na sua vida, por que havia cruzado o seu caminho desta maneira tão inoportuna, sem dar espaço para recusas, receios, cuidados. Ela sempre olhava para trás e lembrava dos detalhes bonitos, dando espaço para pensar em reconstruir, mas reconstruir o quê, já que olhou de novo e percebeu o quanto aquele lugar sempre foi vazio.


Aquela sensação de abandono que toda vez ele deixava já não era mais a mesma, pois nunca realmente estiveram juntos. Nunca haviam passado o Natal juntos, o Ano Novo, o dia dos namorados e tantas outras datas importantes, as quais ele sempre costumava falar do capitalismo como desculpa. Mas e o que falar das fotos como casal que eles nunca tiraram? E dos planos que ela insistia em fazer com ele? Isto é que era afinal: um amontoado de expectativas, dores, desejos, equívocos e uma boa porção de amor e esperança – é o que a fazia sobreviver.

Em um dia muito sem graça, andando silenciosa e cheia de desânimo ela aprendeu a enxergar o seu limite. Viu que durante todo esse tempo, achando que ele fosse o homem da sua vida era, na verdade, a ilusão da sua vida - o moço e sua substituta, sempre à procura da mulher de sua vida. Ele foi seu relacionamento mais curto e seu romance mais longo.

Hoje tudo o que ela quer é esquecer o que foram, o que disseram, o que fizeram. Quer tirar dela, apagar as marcas, quer esquecer de tudo o que ele trouxe para sua vida, de bom ou de ruim, não importa. Quer esquecer as poucas vezes que pegou em sua mão, de alisar os seus dedos, de contornar – sem mesmo perceber – a linha do seu corpo como quem tenta decorar um traçado para desenhar depois na memória. Esquecer todas as mágoas, todas as noites passadas em claro. Quer esquecer as vezes em que achava que ele ia ver como ela queria que ele a visse, toda a disposição que ela se propunha tantas vezes. Ela quer esquecer. Mais do que isso, ela precisa esquecer, senão não sobrevive – ela precisa varrê-lo dela, pra sempre.

Ela compartilha silenciosamente da sua solidão, bem de longe, imersa em sua própria impossibilidade, com uma tristeza cinzenta que não precisa dividir, já que ele não cuidou bem dela, pois está feliz demais pra se importar.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

medo de errar



"Comecei a me preparar, acendendo o incenso de sândalo, arrumando sobre a cama as almofadas lilases, apagando a luz do canto, acendendo a da cabeceira, mais íntima, sob o lenço abissínio, para que me encontrem em paz e sintam-se perfeitamente à vontade nesta nuvem roxa suspensa que habito e que chamo às vezes, irônica, de 'meu mundo'."

(Caio Fernando Abreu)


Tive uma sensação como se duas mãos me cobrissem os olhos de um jeito muito rápido, antes mesmo que eu tivesse a chance de questionar quem era e do nada, foi apenas a urgência de sair imediatamente de casa e correr pra rua, sem estar certa pra que ponto exatamente. Preciso começar de onde parei e começar está se tornando algo difícil. Bater porta sabendo que vai voltar, insultar sabendo que o outro vai desculpar, fazer bobagens que irão irritar por bastante tempo. Fazer amor prazeroso depois disso tudo. Novas situações, novos cenários, novos dialetos. Nova forma de ver o mundo com os mesmos olhos, mas com outra visão. É o que se espera, mas nem sempre o corpo acompanha. Tudo tem sido um aprendizado. Tudo tem sido uma só certeza. Tive um dejavu canalha. Coração na boca, uma saudade sem fim e vontade de colo. Uma cumplicidade assustadora. E ter medo é minha obrigação e meu talento. Aquele abraço capaz de segurar o mundo é como se fosse a última melhor lembrança que pudesse ter na vida. O resto é apenas dor de cabeça de uma noite mal dormida.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

(a)fundo





"Minha lâmpada de cabeceira está estragada. Não sei o que é, não entendo dessas coisas. Ela acende e, sem a gente esperar, apaga. Depois acende de novo, para em seguida tornar a apagar. Me sinto igual a ela: também só acendo de vez em quando, sem ninguém esperar, sem motivo aparente. Para a lâmpada pode-se chamar um eletricista. Ele dará um jeito, mexerá nos fios e em breve ela voltará a ser normal, previsível. Mas e eu? Quem desvendará meu interior para consertar meus defeitos?"


(Caio Fernando Abreu)

O "pouco" sempre me preocupou. Pode até parecer pretensioso da minha parte, mas eu não trocaria nenhum ponto na minha maneira de ver a vida. Eu sempre fui assim, bicho complexo e cheio de reentrâncias.

Quando falo da palavra “pouco”, não me refiro aos bens materiais ou façanhas que estão longe do meu próprio desejo, mas a comportamentos que felizmente não estão em liquidação e apenas acontecem mediante a minha vontade. Nunca me permiti viver as coisas na superfície, a passeio.

Não pretendo inventar explicações pra todos os meus atos, desejo a solução para conseguir o que busco.


quarta-feira, 13 de julho de 2011

complicated shadows


"A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito?"


(Caio Fernando Abreu)




Quem me dera viver nas nuvens. Porque é onde moram meus pensamentos. E a minha cabeça é aquela velha e cansada máquina que nunca sossega. E lá é mais perto de Deus. Tentar me deixar levar por um momento, como se nada fosse. Observar tudo do alto. Ver meus problemas menores. Alterar minha percepção de vida. Olhar o mundo pequeno. Meus temores tão notáveis quanto uma formiga. A visão otimizada e falsa de tal altitude. Numa altura onde até a minha saudade fique pequenina. Nada de interação ou questionamento, só aceitação. Ficaria maior. Enorme e superior. Como pode tanta coisa mudar, se ainda sinto o mesmo? Preciso manter o equilíbrio. Quero me harmonizar.

sábado, 9 de julho de 2011

"Apenas se ama, na tranquilidade de nada exigir em troca"


☊ love is noise 



"E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto."

(Caio Fernando Abreu)





O amado fragilizado, atirado sobre a cama, sonha com os olhos bem fechados.
Ele amava o lado obscuro dela, amava quando ela ficava brava, amava o que há de pior nela.
Não crê no fim da linha, não pode acreditar que tudo se desmanchou completamente.
Como dizer o que é preciso ser dito?
Apaixonados desde o primeiro momento - o dela.
Naquele tempo em que era tão bom não achar as respostas certas.
Cantarolava canções quando a levava ao trabalho.
Tinham sua falta de juízo, suas palavras, suas músicas e uma imaginação invejável.

Ah, querido, não permita que esses olhos fechados encerrem esse amor.
As centenas de caixas cheias de chocolate provam a grandeza dessa paixão: uma adolescência transparente.
Essa história está somente passando para a vida adulta.

terça-feira, 5 de julho de 2011

os detalhes que atentam



Nasci numa primavera. Foram 13 horas até conseguir chegar ao mundo. Ganhei alguns presentes, mas o que eu mais gostei foi uma boneca de pano com os cabelos vermelhos, dada pelo meu avô, esta boneca ainda existe. Quando fiz 4 anos, ganhei outro presente do meu avô, um balanço sob uma mangueira que ficava no quintal de casa, lá era meu refúgio. Era onde brincava por horas com minha boneca de pano, chamada Beatriz. Sempre tive os cabelos curtos, até começar a escolher minhas roupas e meu corte de cabelo. Cresci. A casa começou a ficar pequena, mas um dia ficou grande de novo. Sofria muito por me questionarem por pensar demais, por me trancar no meu mundinho particular, mas eu não achava/acho isto errado.
Adoro uvas. Preciso vestir diariamente roupas escuras, apesar de gostar de roupas claras. Tenho preguiça de usar batom. Tem dias que só quero ficar na cama, ouvindo músicas. Filosofia, poesias, Carpinejar, Caio Fernando Abreu e Nietzsche. Uma coberta com 20 anos. Papéis, canetas, cartas. Distraio-me pegando uma rua qualquer. Andando consigo ter minhas melhores ideias e sempre acho que devo comprar um gravador. Curto, choro, vivo. Adoro ficar sozinha, mas tenho medo de ficar sozinha pra sempre. Suco de laranja. Empadão de frango. Aprendi a ter paciência. Fobia à aves, mas gosto de comer carne de aves. Adoro o sol e de olhar as estrelas à noite. Rock alternativo. Cerveja e cigarros. Batata frita. Olhar o pôr do sol. Tatuagens. Eternal Sunshine of the Spotless Mind e Elizabethtown. Coldplay. Massagem, carinho e ócio. Parede riscada. Inglês. Pará. Castanhal. O cheiro da primeira vez, perfumes, maquiagem, roupas novas, planos, viagens, romance, conquista, sedução, entrega, verdade. Bar do meio. Café com polenta da mamãe. Manter todas as coisas perto pra não esquecer quem sou.

domingo, 19 de junho de 2011

coração amarrado


☊ pulsos 

"E quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode, porque está tentando adequar/ajustar um arquétipo, uma imagem de toda a nossa infinita carência, nossa assustadora sede, a uma realidadezinha infinitamente inferior."


(Caio Fernando Abreu)                                                                                                 


Não me ponha limites, não estabeleça barreiras para mim. Não me faça desistir de sonhar.
Não sou nenhum tipo de matéria que você possa moldar; não procure mais me iludir com as coisas que eu queria ouvir. Não me faça fugir pra depois não tentar me segurar.
Não me ponha na postura de sedução, não tente aparentar ser inglês, não tente aparentar ser esmerado, não seja indiferente. Goste de mim mesmo quando não conseguir te fazer sorrir.
E por favor, deixe de ser essa pessoa insuportável que eu não tinha conhecido.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

você acha que eu não sei?


☊ mr. brightside

"Parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas-separações, as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim os rostos dos que ficam. E do buraco negro da memória que ocupa agora o espaço anteriormente ocupado por essa pessoa – sim, era uma pessoa que não lembro - , em vez de faces, jeitos, vozes, nomes, cheiros, formas, chegam-me somente emoções confusas ou palavras como estas – doloroso, amargo, irreparrável."

(Caio Fernando Abreu)


Sabe, você vai ter que esperar tanto. Nem faço questão que espere, mas eu sei que você está esperando! Esperando pra me ver no fundo do poço, chorando, perdendo o controle, implorando por migalhas de atenção e carinho; que eu peça que me perdoe por uma coisa que não fiz. Agora, muito depois das lágrimas que tive vergonha de verter, percebo que o tempo passou e que está parando de doer. E você continua esperando que eu dê minhas vísceras, entranhas, meu sangue coagulado pra te alimentar com o que tem de mais podre em mim. Chega! Não vou mais te alimentar, devorador de carniça, mal agradecido, miserável. Você acha que sempre está certo em tudo e pensa que é realmente muito esperto.
Vista-se com seu disfarce de quem não se importa. Mas nós sabemos (todos sabem) que você se importa. E você tenta esconder que tem medo disso, mas você nem sempre consegue.
Quanto a mim? Eu estou aprendendo a nem me importar. Se for necessário, lerei vários livros de auto-ajuda, ficarei em silêncio mesmo querendo gritar, rezarei para um deus que nem sei se acredito, incitarei a mim mesma, romperei laços, destruirei pontes. Mas você não se alimentará mais de mim.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

minha ilha perdida


☊ use somebody

"Não tenha medo, menino. Você vai encontrar um jeito certo, embora não exista o jeito certo. Mas você vai encontrar o seu jeito, e é ele que importa. Se você souber segurar, pode até ser bonito."

(Caio Fernando Abreu)

Quando contei o que machucava, ele falou: "a gente vai ar um jeito". E não foram simples palavras. Pois a gente já passou por uma situação parecida nessa vida. E não está sendo mais fácil, mas dói parecido. Daí, você percebe que não está sozinha. E não é apenas de amor. De amor clichê. É sozinha, no mundo. É ver que no momento do desespero, ele vai te abraçar bem forte, segurar o seu rosto e olhar bem nos seus olhos pra falar que vai dar tudo certo. Afinal, qual é a graça de viver a vida se você não tiver com quem dividir? Mesmo que você perceba o chão se abrindo sob seus pés e o caos domine tudo ao seu redor. Passa a enxergar dentro da outra pessoa, descobrindo todos os pontos fracos sem fazer com que isso seja algo ruim. Tanto faz. Aquele abraço capaz de segurar o mundo é como se fosse a última melhor coisa que pudesse ter na vida. Ele não se deixa abalar. Não quando você precisa. Não vai te deixar desistir, nem cair. É onde você passa a confiar, apostar, acreditar e investir.

Pois há um companheirismo, uma cumplicidade, uma afinidade que não se destrói, apesar da distância, do tempo, dos contratempos do cotidiano. Nos segura, nos põe pra frente, nos deixa feliz por tão pouco. Certas coisas são, não estão. E é isso que estou falando. De infinitudes e certezas.
É vontade de estar ao lado um do outro o tempo todo pra não se perder nunca.


"Em decadência da minha mente, consumo contraditório, eu vejo que ainda sinto falta, vem me visitar e perturba meu sono, veja como está! (está bem, minha criança).
Da realidade a mentir pra si mesmo, alimentado por dois mundos tão diferentes e tão perto de serem perfeitos, eu me deixei ser julgado por não entender a origem do que eu poderia ter 'deixado acabar'.
Fantasias, você não me arrancará assim de você, chorará pelo que deixei em você - lembranças, amores, beijos, e uma vida acabada. Eu não quero me arrepender de nada, o fiz de certa forma e tenho que pagar; justa injustiça a meus planos quase fora da mesa.
Imaginário de tumulto, criando você em pedaços, divididos em corpos, a sua alma está em mim, o seu perfume. Os sons se tornam diferentes, pesados em noites não dormidas, as palavras continuam se repetindo...
Está tão longe, o mundo me parece menor, eu vejo por que não vivo mais, apenas os rostos, familiares pro mundo, diferentes demais pra cumprimentá-los.
Ao fim da tarde eu não posso temer nada, eu amo e acabo tudo, vidas...
Vagando longe daqui, mas eu ainda sinto sem poder querer que venham."

segunda-feira, 30 de maio de 2011

voltar à caminhada


☊ sonnet

"A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdido e pesado pelos dias afora. E ninguém vê que estou morto."

(Caio Fernando Abreu)

Releio textos antigos, faço chover papel picado. Se ao menos tivesse outros poderes ou mesmo outras capacidades...
Minha sombra dança no meio da sala ao som daquela música que não me sai da cabeça e eu permaneço aqui, estática, lembrando; sobretudo uma capacidade desumana de sonhar, que não me combina com mais nada e me deixa um vazio angustiado no peito quando me ponho a pensar.
Já nem me recordo mais quando fiz amor por alguém.

terça-feira, 17 de maio de 2011

é que ainda sobra um espaço


☊ equalize


"Eu preciso muito, muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você."

(Caio Fernando Abreu)

Já é madrugada. É normal a falta de sono chegar sem avisar e levar embora horas que eram para ser tranquilas e sonhadas. É o coração tomado de dor que atrai esse tipo de acontecimento. O chá não produz mais a boa impressão de indolência, acaba trazendo desconforto por dar um efeito que não mostra na embalagem. Tá certo. À noite você é uma criança. Chora como se não houvesse lágrimas suficiente e come apenas para poder sentir qualquer coisa pesando no seu corpo que não seja dor.

O dia foi cheio de situações tristes que não daria para enumerar nesse texto. É muito simples ficar reclamando, complicado é encontrar as respostas certas para facilitar esta proeza, este esforço que é sobreviver. E só.

O que era doce vai deixando de ter gosto até ficar sem graça. Saborear aos poucos precisa de muita calma, condição que foi arremessada no porão de enganos. E a falta de sono continua, em companhia de uma leve dor de cabeça, mas que não deixa de ser chata. Alma fria, insossa e frívola como uma estátua grega no meio de um deserto de gelo.

Às vezes, tudo aparenta ir bem. Mas, é apenas a consequência dos primeiros minutos que um bom brigadeiro causa. A sensação é rápida. Existe coisas mais fortes. Não há mais como evitar. A experiência, na verdade, não será desejável. Se bem que ilusões fazem parte do abstrato. Mas quem se importa?

A imaginação é uma necessidade. Fraqueza.

Nem areia nos olhos. Nem sonhos estranhos, esquecidos e sem sentido. Nem amores efêmeros. Nem telefonemas frustrantes. Nem menosprezos. Só existe a melancolia. E a madrugada.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"tenho medos bobos e coragens absurdas..."



"Uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa..."

(Caio Fernando Abreu)

Era manhã quando o fim se criou e você surgiu.
As flores pareciam tão imbecis quanto suas estúpidas cores.
Efetivou a imortalidade delicada e cruel de nuvens mandantes.
Promoveu a fragilidade e ocupou o que estava desabitado com um vago anúncio de voo.
Qualquer motivo de aborrecimento menor se torna apenas o que jamais deveria ter deixado de ter sido: um motivo de aborrecimento qualquer.

Hoje choveu e o sol apareceu.

Preguiçoso, mas apareceu.
A vaidade fica esquecida na gaveta de maquiagens.
Sombrio rajar verdejante, azul perfeito.
Por meio segundo a vida parece feliz e seu sorriso a única indizível emoção.
Escuta: - Existiu entendimento!
E tudo se (des) envolveu, pois quando amanheceu ela desvaneceu (mas não se esgotou!).