Mostrando postagens com marcador she. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador she. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de agosto de 2011

o começo de uma história sem fim





Ela desperta e nem mostra sinas que vive. Fica cansada e acaricia os cabelos num jeito de esgotar os pensamentos inquietos. É séria demais pra admitir pra si mesma que não sabe amar. Não cede ao sono tranquilo e põe-se de pé lentamente. E nem precisa.
Não aconteceu nada de novo. E de repente da mágoa se fez preguiça. Preguiça de tentar.
Inunda-se, então, de 
aflições e fobias. Arruma a mochila e apronta sua rotina. Anda pelas ruas como quem sai batendo portas e transportando nuvens escuras, que não tarda virar uma tempestade. Quem sabe algumas coisas já não caibam mais na sua vida, por mais que ela queira que caibam. Seus olhos vagueiam por entre as pessoas, os animais e os lugares. Tentando aceitar que as coisas mudam, que as pessoas mudam.
Os lábios, 
assíduos, clamam seu nome. Os letreiros bradam, em um conjunto de ideias levianas, seu nome e ela se satisfaz plenamente de si mesma. Parou de reclamar. Abriu mais os olhos e fechou a boca.
Recorda-se da sua penúria frente ao espelho, dos seus 'culotes' mal formados, seus ombros largos, suas coxas grossas, busto pequeno e braços frágeis. Estava acostumada a estar só, flutuando numa existência tão ridícula quanto as desculpas que dava pra si mesma pra permanecer nesse estado. Fizeram-lhe em tudo vaga, mas deram-lhe dois olhos e equilibraram todos os seus estorvos. Olhos que percebem. Olhos de olhares frágeis. Cansada de olhar pra baixo. Ela e seus olhos míopes.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

uma personagem sem nome




"Nunca esqueci a experiência de quando alguém botou a mão no meu ombro de criança e disse:
- Fica quietinha, um momento só, escuta a chuva chegando.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores. Então, por favor, me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos. Silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconserto nosso. Com medo de ver quem - ou o que - somos, adia-se o defrontamento com nossa alma sem máscaras."


(Lya Luft)

Ela fez um pedido na noite passada, justamente quando uma estrela cadente decidiu passear. E olhem só: A certeza veio! Algo que a devolveu a vontade de ser humano. O céu jamais esteve tão repleto de estrelas. O céu a deu respostas e de lá saiu caminhando em nuvens. O céu conspirou em favor ao desejo da moça, pela primeira vez o céu fez um sinal positivo. Então foi assim. A moça foi depressa falar pra mãe sobre a maravilha que é a vida. E achando injusto o que tinha feito ao longo de toda vida, retirou da caixinha as estrelas que colecionava em segredo e as colocou por perto. Ela foi tudo o que se tornou. Em cada estrela, um amor em sua vida. Para que coloquem suas estrelas, para que recolham seus amores. Mas pra isso, é necessário acreditar! Acreditar nas estrelas e especialmente nos amores.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

(des)conforto


☊ something special

Olha para si e para seu corpo ileso. Acostumar-se com sua magreza não a tornava mais agradável.
Menina ainda, com discretas curvas admiráveis e finos traços. E lá se vinham os sonhos molhados, planos no varal e o coração atirado na lama.
A infância vai embora. Numa noite de verão, onde achou tudo muito quente. Os azulejos e a branquidão do quarto contradiziam os sons e barulhos que ouvia por todos os lados.
Chegou a uma pré formação de um corpo juvenil. Sem boas-vindas.
Com a mente e o coração fraco, ela ainda fazia tranças em suas ruivas bonecas. Sentia que iria explodir em prantos a qualquer momento, mas não conseguia.
Diante do espelho, frágeis olhos se abriam para o despertar volúpio; para o corpo despido e banhado de suor, para a astúcia recém-chegada. Finalmente, sentia o ar que necessitava inflar-lhe os pulmões.
Carne, mãos, toques, conhecimento. Curiosidade cresce tanto...
As mãos de delicados contornos, percorriam pela lingerie clara e um tanto atraente, conhecendo cada curva, cada detalhe, a transpiração, o trajeto; tudo estava tão confuso quem sabia o que pensar.
Mas a verdade é que a menina deixara de ser menina. Está na hora de alguém lhe ensinar as coisas, porque está cansada de ter que aprender tudo sozinha.
Uma nova mulher surge para o mundo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

essa forte doçura


☊ remember you're a girl

"Queria dizer: Eu te amo: nunca mais te esqueci: Eu te lembro quando é outono: dói quando é inverno, mas desisto. Dizem: São somente palavras e o tempo tudo resolve. Mas o tempo não entende do tempo que levei para encontrar-te e, ele tampouco sabe da dor que me causa, quando te leva, só porque resolve tudo."

(Julio Almada)


Mas a fada da esperança achará o caminho de volta. Pegará a menina-alegria pelos ombros e lhe dará umas balançadas. Para fazer com que os maus pensamentos voem pra longe da cabecinha dela. Tentando ir por um caminho que não era o seu. Pra muito longe dali. A partir daí, então, imaginando contos onde príncipes e castelos e cavalos brancos tenham vez. Pois o idealizado não deixa de ser real. E a menina-alegria, enquanto espera a fada chegar, continua fazendo suas orações vezenquando, pra achar apenas lindezas e pétalas de sorrisos pelo caminho.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

"tenho medos bobos e coragens absurdas..."



"Uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa..."

(Caio Fernando Abreu)

Era manhã quando o fim se criou e você surgiu.
As flores pareciam tão imbecis quanto suas estúpidas cores.
Efetivou a imortalidade delicada e cruel de nuvens mandantes.
Promoveu a fragilidade e ocupou o que estava desabitado com um vago anúncio de voo.
Qualquer motivo de aborrecimento menor se torna apenas o que jamais deveria ter deixado de ter sido: um motivo de aborrecimento qualquer.

Hoje choveu e o sol apareceu.

Preguiçoso, mas apareceu.
A vaidade fica esquecida na gaveta de maquiagens.
Sombrio rajar verdejante, azul perfeito.
Por meio segundo a vida parece feliz e seu sorriso a única indizível emoção.
Escuta: - Existiu entendimento!
E tudo se (des) envolveu, pois quando amanheceu ela desvaneceu (mas não se esgotou!).
 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

excerto



"Ela dizia que as nuvens pareciam o saiote de uma bailarina de Degas e tinha um céu laranja atrás dos edifícios e uma estrela muito brilhante que ela apontou dizendo que era Vênus e riu quando ele mexeu com ela e disse que podia nascer uma verruga na ponta de seu dedo..."

(Caio Fernando Abreu)

Era uma vez uma garota que tentou atravessar a rua agitada e, mesmo com tanto receio, conseguiu chegar ao outro lado. Queria ter uma certeza. O armazém de guloseimas já estava fechado, mas agora já tinha coragem pra chegar até lá. E sorriu. 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

borboletas no estômago



"Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és. E sou assombrado pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever — mas sou obrigado a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço."

(Clarice Lispector)


Ela que ama sem conhecer. Que tem consciência de ser amada, só não está certa por quem. Que ele aceite esse sentimento de forma tão machucada e falsa, sem nunca conversar a respeito. Ela que sonha, ainda, achá-lo em qualquer lugar. Ela também não tem a mínima ideia de onde ele está ou do que sente. Ela que é espreitada de longe por quem ela ama, mas não tem iniciativa para conseguir tê-la. Se a quer por perto ou a uma distância segura. Ela que é linda, que se ama, que deseja amá-lo. Mesmo que ele saiba de tudo isso, mesmo que ele ria de tudo isso. Já falaram que ela tem olhos de vírgula, parecidos com uma clave de fá. Jamais terá seus olhos traçados de um jeito tão normal-anormal. Ela é séria demais para admitir para si mesma que não sabe amar. Ela que não quer nada de mais, telefonemas no meio da noite, sorvetes no domingo à tarde, filmes sábado à noite, colo na tristeza, abraço inesperado e intenso. Tempo de calar. Sorriso sincero ao vê-lo.