segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

borboletas no estômago



"Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és. E sou assombrado pelos meus fantasmas, pelo que é mítico, fantástico e gigantesco: a vida é sobrenatural. E caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever — mas sou obrigado a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço."

(Clarice Lispector)


Ela que ama sem conhecer. Que tem consciência de ser amada, só não está certa por quem. Que ele aceite esse sentimento de forma tão machucada e falsa, sem nunca conversar a respeito. Ela que sonha, ainda, achá-lo em qualquer lugar. Ela também não tem a mínima ideia de onde ele está ou do que sente. Ela que é espreitada de longe por quem ela ama, mas não tem iniciativa para conseguir tê-la. Se a quer por perto ou a uma distância segura. Ela que é linda, que se ama, que deseja amá-lo. Mesmo que ele saiba de tudo isso, mesmo que ele ria de tudo isso. Já falaram que ela tem olhos de vírgula, parecidos com uma clave de fá. Jamais terá seus olhos traçados de um jeito tão normal-anormal. Ela é séria demais para admitir para si mesma que não sabe amar. Ela que não quer nada de mais, telefonemas no meio da noite, sorvetes no domingo à tarde, filmes sábado à noite, colo na tristeza, abraço inesperado e intenso. Tempo de calar. Sorriso sincero ao vê-lo. 

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