domingo, 26 de dezembro de 2010

solidão acompanhada



"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto -uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir."


(Clarice Lispector)


Saudade. Afirmam ser uma palavra presente somente no vocabulário brasileiro.
Calma. A palavra pode até não possuir o mesmo significado quando se cruza as linhas imaginárias determinadas pelos homens, mas o sentimento transpõe qualquer limite e se aloja em qualquer coração, embebe em qualquer alma que conhece o real sentido da dor. Aquelas pequenas mágoas que você junta e depois usa de álibi se, na calada da noite, começa a se culpar por ser assim tão ruim em manter qualquer tipo de relacionamento.   
Possuo tantas saudades; pessoas que estão enlaçadas em fases da minha vida, gostos que não ficaram conservados pelo sabor, perfumes que desapareceram, abraços enérgicos que perderam o entusiasmo, porém a saudade que mais me dói é a que está evidente em tudo. É um toque maldoso e irônico de Deus (quem sabe?), mas algumas pessoas ficam tão bonitas quando tristes. Não tem jeito, tudo me lembra você.

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