"Valsando
como valsa uma criança, que entra na roda.... A noite tá no fim
Ela
valsando, só na madrugada, se julgando amada ao som dos Bandolins...
Ela
teimou... e enfrentou o mundo, se rodopiando ao som dos bandolins..."
(Oswaldo
Montenegro)
Preencho meu olhar com coisas tão artificiais,
que por pouco não as vejo. E quando chega a noite, o sossego, a calma, a
escuridão, é que vejo melhor. A mudança está acontecendo – como sempre acontece
– aos poucos. Ao som do sono tranquilo da família, ao som da casa adormecida por
inteira, no sossego dos sonhos, é que eu posso enxergar. Começou sutil e
terminará avassaladora. O dia imenso, transparente, evidente, turbulento, me ilude.
As coisas diminutas que vejo durante o dia me iludem. Nada mais. O extraordinário
e belo eu consigo ver à noite, quando não existe nada mais para ser visto. Foram-se
os sonhos, ficaram as dores. Meus olhos, bastante preenchidos com as insignificantes
coisas, já estão quase desvanecidos.
Vivemos nos preenchendo de vazios a vida inteira. Qualquer coisa nos 60 segundos com que desperdiçamos os minutos inteiros. Vivemos nos contentando com metades, desperdiçando-nos inteiros. Vivemos nas distrações de nós, ocupando boca com qualquer sorriso, beijo com qualquer boca, fome com qualquer prato, amanhãs com quaisquer sonhos. Ao longo do dia, claridade nos cega para qualquer canto escuro da gente. E quando chega a noite, o silêncio nos cerca e então podemos ouvir nossas marés revoltas e nossos cortes, monstros adormecidos pelo constante rodopio dos dias que alimentam nossos medos. À noite quando sem o outro, estamos povoados de tantos nós. Verdades que não refletem o espelho...
ResponderExcluir