"E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam - e queimar também destrói."
(Caio Fernando Abreu)
(Caio Fernando Abreu)
Parou então para pensar o que ele tinha vindo fazer na sua
vida, por que havia cruzado o seu caminho desta maneira tão inoportuna, sem dar
espaço para recusas, receios, cuidados. Ela sempre olhava para trás e lembrava
dos detalhes bonitos, dando espaço para pensar em reconstruir, mas reconstruir
o quê, já que olhou de novo e percebeu o quanto aquele lugar sempre foi vazio.
Aquela sensação de abandono que toda vez ele deixava já não
era mais a mesma, pois nunca realmente estiveram juntos. Nunca haviam passado o
Natal juntos, o Ano Novo, o dia dos namorados e tantas outras datas
importantes, as quais ele sempre costumava falar do capitalismo como desculpa. Mas
e o que falar das fotos como casal que eles nunca tiraram? E
dos planos que ela insistia em fazer com ele? Isto é que era afinal: um
amontoado de expectativas, dores, desejos, equívocos e uma boa porção de amor e
esperança – é o que a fazia sobreviver.
Em um dia muito sem graça, andando silenciosa e cheia de
desânimo ela aprendeu a enxergar o seu limite. Viu que durante todo esse tempo,
achando que ele fosse o homem da sua vida era, na verdade, a ilusão da sua vida
- o moço e sua substituta, sempre à procura da mulher de sua vida. Ele foi seu
relacionamento mais curto e seu romance mais longo.
Hoje tudo o que ela quer é esquecer o que foram, o que
disseram, o que fizeram. Quer tirar dela, apagar as marcas, quer esquecer de
tudo o que ele trouxe para sua vida, de bom ou de ruim, não importa. Quer esquecer
as poucas vezes que pegou em sua mão, de alisar os seus dedos, de contornar –
sem mesmo perceber – a linha do seu corpo como quem tenta decorar um traçado
para desenhar depois na memória. Esquecer todas as mágoas, todas as noites
passadas em claro. Quer esquecer as vezes em que achava que ele ia ver como ela
queria que ele a visse, toda a disposição que ela se propunha tantas vezes. Ela
quer esquecer. Mais do que isso, ela precisa esquecer, senão não sobrevive –
ela precisa varrê-lo dela, pra sempre.
Ela compartilha silenciosamente da sua solidão, bem de
longe, imersa em sua própria impossibilidade, com uma tristeza cinzenta que não
precisa dividir, já que ele não cuidou bem dela, pois está feliz demais pra se
importar.

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