quinta-feira, 5 de maio de 2011

o nada onde me tocas



"Eles desejam coisas que não existem. Eles não conhecem a paixão, nem tu. A tudo isso eu chamo tontura, não prazer. Evita a vertigem. Resseca, desbasta, o limite é a nudez do osso. Além dele, se avançares, há somente poeira. Mas cuidado, exigem-se os dentes fortes que Nanã perdeu. Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real."

(Caio Fernando Abreu)

Ontem eu vi o pôr do sol pela metade; o vidro estava embaçado. Então tentei de alguma forma voltar a ser o que eu era, mas tudo se mostra inútil.
Quantas lembranças atravessam nossos olhos no minuto entre a vidraça, a varanda e o prédio da frente. Era o nada. E desse nada fez-se tudo. E de tudo de desnudo faria-se... o nada novamente?
Quantas luzes transitam pelo nosso corpo quando o sol deita sobre as águas e a ponta da mesa é o melhor lugar de onde se pode olhar. Estava sozinha. Naquele lugar, naquela mesa, naquela cidade, naquele coração insidiosamente clichê que carrego.
Como um mês e meio pode virar uma eternidade?
A luz transitando pelos olhos. As lembranças permaneceram pela pele. Olhei quase sem querer para a frente, num desses gestos ínfimos que são capazes de mudar a vida de qualquer pessoa de pouca fé.
A mesa. O rio. O sol. Uma mão que me agarrou com força e arremessou para o passado. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário