(Caio Fernando Abreu)
Ontem eu vi o pôr do sol pela metade; o vidro estava embaçado. Então tentei de alguma forma voltar a ser o que eu era, mas tudo se mostra inútil.
Quantas lembranças atravessam nossos olhos no minuto entre a vidraça, a varanda e o prédio da frente. Era o nada. E desse nada fez-se tudo. E de tudo de desnudo faria-se... o nada novamente?
Quantas luzes transitam pelo nosso corpo quando o sol deita sobre as águas e a ponta da mesa é o melhor lugar de onde se pode olhar. Estava sozinha. Naquele lugar, naquela mesa, naquela cidade, naquele coração insidiosamente clichê que carrego.
Como um mês e meio pode virar uma eternidade?
A luz transitando pelos olhos. As lembranças permaneceram pela pele. Olhei quase sem querer para a frente, num desses gestos ínfimos que são capazes de mudar a vida de qualquer pessoa de pouca fé.
A mesa. O rio. O sol. Uma mão que me agarrou com força e arremessou para o passado.

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